Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Outro dia me peguei observando como algumas ideias percorrem caminhos inesperados dentro da gente.
Primeiro vêm as imagens.
Depois as palavras.
As lembranças.
As associações.
E, sem perceber, começamos a conectar experiências que pareciam distantes umas das outras.
Certa vez aprendi que o cérebro cria caminhos por associação e multissensorialidade. Por isso, algumas informações não entram apenas pela razão. Elas passam pelos olhos, pelos sons, pela memória, pelos afetos e pelos significados que construímos ao longo da vida.
Até então, eu enxergava tudo isso muito mais pela técnica.
Pela reflexão.
Pelo pensar.
Mas um dos últimos diálogos que tive com meu pai voltou inteiro à minha memória. Em meio a uma conversa, depois de me ouvir, ele respondeu com simplicidade:
— Você está falando a técnica. Eu quero a prática.
Certas frases permanecem trabalhando silenciosamente dentro da gente até fazerem sentido de verdade.
No começo do mês quis fazer uma postagem simples sobre um ipê amarelo.
Uma memória bonita:
meu pai plantando a árvore,
minha mãe observando,
o cheiro silencioso das lembranças.
A imagem estava pronta.
O texto também.
Mas o barulho das polêmicas da internet me fez desistir da postagem
Foi então que comecei a notar detalhes que poderiam passar despercebidos em um olhar apressado:
uma antiga revista guardada em casa trazendo na contracapa um “Sabão Ipê” escrito com I,
o ipê amarelo ligado às lembranças da minha mãe,
e as memórias afetivas despertadas por palavras, imagens e objetos aparentemente simples.
Uma letra.
Uma árvore.
Muitas histórias.
E foi aí que entendi outra coisa:
às vezes a gente se cala para evitar confronto…
mas certos silêncios também machucam.
Comunicação assertiva talvez seja justamente isso:
não transformar divergência em guerra,
nem transformar silêncio em prisão.
Porque as ideias caminham por experiências, memórias, feridas e afetos diferentes.
É justamente aí que muitas conversas se desencontram.
Durante muito tempo eu não entendia por que certas discussões me cansavam tanto.
Depois , percebi que conflito e confronto não são a mesma coisa.
O conflito desenvolve.
O confronto exagera.
Um faz pensar.
O outro faz vencer.
Por isso nunca gostei muito de conversas em que o diálogo perde espaço e a necessidade de estar certo fala mais alto que a vontade de compreender.
E Cazuza talvez tivesse razão quando questionava as unanimidades.
Mas a agressividade também pode empobrecer qualquer conversa.
Nessa minha maratona de pensamentos e sentimentos, fiquei lembrando daquela frase típica de cerimônia de casamento:
“se alguém tiver algo contra… fale agora ou se cale para sempre.”
É interessante como, às vezes, a vida parece colocar a gente exatamente nesse lugar.
E entendi que agir nem sempre significa fazer grandes movimentos.
Às vezes agir é apenas prestar mais atenção no que antes passava despercebido.
É justamente assim que as mudanças verdadeiras começam:
quando aquilo que pensamos encontra o que sentimos…
e finalmente faz sentido dentro da gente.



