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Colonoscopia sem medo: o exame que salva vidas não deve ser adiado - Rede Gazeta de Comunicação

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Colonoscopia sem medo: o exame que salva vidas não deve ser adiado

Fernando Bray

Médico

A notificação de fatalidades na medicina frequentemente acende o alerta na opinião pública. Recentemente, a morte de uma mulher em São Paulo devido a complicações de uma perfuração intestinal durante uma colonoscopia gerou forte comoção e intensificou a apreensão em torno do procedimento. O receio, somado ao desconforto associado à etapa de preparo prévio, leva muitos pacientes a adiarem o agendamento. Trata-se de um equívoco perigoso para a manutenção da saúde e da qualidade de vida.

O racional por trás da recomendação médica é claro: adiar a colonoscopia até o surgimento de sinais visíveis, como o sangramento nas fezes, frequentemente significa diagnosticar um tumor já em estágio avançado, e não apenas remover lesões precursoras.

O papel crucial da colonoscopia é de investigação diagnóstica de sintomas existentes e o rastreamento preventivo em indivíduos assintomáticos. Sua indicação clínica abrange manifestações como sangramento digestivo ou presença de sangue visível nas fezes, alterações na absorção de nutrientes e perda de peso inexplicada, mudanças repentinas no hábito intestinal e a sensação de evacuação incompleta ou alteração no formato das fezes.

Dada a sua relevância, no âmbito da prevenção, os protocolos atuais estabelecem diretrizes claras quanto à idade. Assim, pacientes com mais de 40 anos devem realizar o exame mediante a apresentação de qualquer sintoma intestinal. A partir dos 45 anos, a colonoscopia é recomendada como rastreio populacional de rotina, independentemente da ausência de sintomas. Já pacientes com antecedentes de câncer de cólon ou com síndromes hereditárias (como a Síndrome de Lynch/HNPCC) devem iniciar o rastreamento precocemente, sob orientação médica especializada.

É importante destacar que o principal objetivo do rastreamento é a identificação e remoção de pólipos adenomatosos — formações glandulares decorrentes de mutações durante a duplicação celular. Essas alterações ocorrem por predisposição genética associada a fatores ambientais, tais como o sedentarismo, o consumo de álcool e tabagismo, além de dietas ricas em alimentos ultraprocessados, produtos inflamatórios e excesso de gordura saturada animal.

A ressecção dessas lesões antes que evoluam para uma neoplasia maligna é a forma mais eficaz de prevenção do câncer de intestino. A ampliação do rastreio — hoje solicitado não apenas por gastroenterologistas e coloproctologistas, mas também por clínicos gerais, ginecologistas, geriatras e cardiologistas — tem viabilizado diagnósticos cada vez mais precoces e tratamentos menos invasivos.

Apesar das narrativas que ganham dimensão nas redes sociais, estatísticas clínicas demonstram que a colonoscopia permanece um procedimento seguro. Os dados de incidência de perfuração intestinal evidenciam a raridade do evento. A taxa de perfuração intestinal é de um a cada 14 mil procedimentos, ou seja, muito baixa. Para pacientes sintomáticos a taxa de risco de perfuração passa para uma a cada 2 mil exames. Já para pacientes que têm um pólipo e tem que retirá-lo, a incidência é de uma em cada 1.250 exames. Esses dados reforçam que a colonoscopia é um exame seguro. Mais do que isso, é um exame necessário, um procedimento que salva vidas.

É igualmente válido esclarecer que, como todo procedimento invasivo, a colonoscopia apresenta riscos que devem ser conhecidos e geridos por equipes capacitadas. Para além da perfuração intestinal, que deve ser tratada com conduta ágil da equipe multidisciplinar para correção cirúrgica e fechamento da lesão, há riscos de sangramentos, exigindo suporte clínico, e de bacteremia, caracterizada por tremores, calafrios e febre pós-procedimento, tratada prontamente com esquemas antibióticos adequados.

Riscos pontuais do exame colocados, a ponderação entre eles e o desconforto temporário do preparo frente ao benefício de prevenir uma doença grave reafirma a colonoscopia como uma ferramenta indispensável da medicina preventiva. A fatalidade ocorrida em São Paulo e amplamente noticiada não pode e não deve servir de argumento para que esse exame tão importante seja procrastinado. A vida agradece.