Mesmo com inflação acima de 100% e desemprego em alta, 50 mil torcedores viajam ao Mundial; muitos vendem carros e hipotecam férias para acompanhar a seleção.
Enquanto a Argentina enfrenta uma das piores crises econômicas de sua história — com inflação acumulada superior a 100% nos últimos 12 meses, desemprego batendo em 7,5% e perda acelerada do poder de compra —, uma legião de 50 mil alvicelestes desembarcou nos Estados Unidos para a Copa do Mundo mais cara já realizada. O fenômeno desafia a lógica financeira e revela um traço cultural profundo: para o argentino, acompanhar a seleção é prioridade absoluta, mesmo que isso signifique vender o carro, hipotecar as férias ou adiar planos de longo prazo.
No Arrowhead Stadium, em Kansas City, a estreia contra a Argélia foi um retrato dessa paixão sem fronteiras. Mais de 65 mil pessoas lotaram as arquibancadas, e Lionel Messi — como se fosse roteiro de cinema — marcou os três gols da vitória por 3 a 0, coroando a noite com mais uma atuação de gala. Entre os presentes, histórias de sacrifício se repetiam: Maximiliano Careri resumiu o espírito coletivo com uma frase que ecoa nas ruas de Buenos Aires: “Sempre estamos em crise, já aprendemos a viver com ela. Nós nos preparamos quatro anos para estar aqui”. Ao lado dele, Alejandra Cudoz completou: “A vida é uma só. Temos que vivê-la, desfrutá-la, e o futebol é paixão”.
Pablo Blanco, que não perde uma Copa desde 1998, relembrou que a tradição de sacrifício já vem de longe: “Em 2002, a Argentina vivia outra crise terminal. Vendi meu carro e juntei cada peso que tinha para ir”. Dessa vez, ele viajou com a esposa e os três filhos — Trinidad, Santino e Bautista —, todos criados dentro do ritual de viagens mundiais. Trinidad, a mais velha, conta que a paixão se passa de pai para filho de forma natural: “Estou estudando esporte também, e sinto que essa conexão nos une como família e nos conecta com nossa identidade”.
Juan López, outro torcedor entrevistado, foi direto ao ponto sobre o esforço financeiro: “O argentino que não tem um tostão vem assim mesmo. Não sobra nada, mas vendemos o carro, hipotecamos as férias e deixamos de fazer planos para desfrutar deste momento com os nossos”. E Roberto García acrescentou um aspecto político e social: “Esta seleção, pontualmente, conseguiu nos unir. Temos muitos problemas no país e divisões profundas, mas a camisa alviceleste fala mais alto que qualquer diferença”.
O período de jejum de títulos — que durou de 1993 a 2021 —, marcado por vices dolorosos na Copa de 2014 e em três finais de Copa América, criou uma resiliência coletiva. Quando a vitória finalmente veio, no Maracanã, em 2021, contra o Brasil, a explosão de alívio e alegria foi catártica. Desde então, vieram a Copa América de 2024, a Finalíssima de 2022 e, claro, o triunfo no Catar em 2022, selando o ciclo vitorioso de Messi com a camisa que tantas vezes o fez chorar. Agora, nos EUA, a missão é repetir o feito e ampliar a coleção de estrelas, enquanto 50 mil almas — entre economias poupadas, dívidas contraídas e sonhos realizados — pintam os estádios de azul e branco, provando que, para o argentino, a crise pode até apertar o bolso, mas jamais arrefece o coração.



