Adelaide Valle Pires
Autora
No caminho, ainda dentro do carro, Heitor me olhou e perguntou:
— Vovó, você não vai contar a história da porta mágica?
Sorri.
Ele estava falando de mim — desse meu jeito de transformar tudo em história.
Mas, dessa vez, eu não contei.
— Hoje a história é sua.
Quando chegamos, havia uma porta.
Sozinha. Em pé. No meio do caminho.
Entramos.
Ele escolheu a mesa: redonda, lá no fundo, com sete lugares.
— Essa é a mesa perfeita pra nós.
Naquele momento, éramos cinco.
Mas a viagem era de sete.
E, de algum jeito, todos estavam ali.
Sentou ao meu lado e começou:
“Era uma vez um explorador chamado Athos.
Ele era muito curioso.
Um dia, encontrou uma porta mágica no meio do nada.
Quando entrou, foi parar em um lugar diferente.
Lá tinha muita massa. Só tinha massa pra comer.
Mas também tinham os guerreiros da massa, que não deixavam ele sair.
E tinha uma parte invisível que impedia a passagem.
Ele tentou de todo jeito. Passou por vários perigos.
Até descobrir que existia um desafio secreto.
Quando conseguiu resolver… encontrou o segredo mágico.
E conseguiu sair.”
No meio da história, Athos entrou:
— Lança a bomba! Lança a bomba!
E ficou.
Misturando imaginação com presença.
Como quem não escuta uma história — entra nela.
Fim da primeira temporada.
— Mas a história não terminou ali.
Enquanto Heitor contava, ele também explorava.
Tocava as paredes. Sentia as texturas.
Como se imaginar não fosse suficiente — era preciso viver.
E foi aí que começou a minha leitura.
A mesa de sete lugares — presença que não depende de quem está fisicamente.
A porta no meio do caminho — convite.
O mundo da massa — aquilo que encanta… e também pode prender.
Os guerreiros — os obstáculos.
A barreira invisível — limites que não se veem, mas se sentem.
As paredes pediam toque.
Os quadros misturavam referências.
Era como se a Itália atravessasse o Brasil —
ou talvez o Brasil atravessasse a Itália.
Na mesa, o simples:
um guardanapo de papel, um barbante fino.
No prato, o inesperado:
uma explosão de sabores.
E então a fala do Athos fez sentido.
A “bomba” não era ameaça.
Era experiência.
Talvez seja assim também com as histórias.
Elas começam pequenas.
Quase despretensiosas.
Ganham corpo na fala de uma criança.
Se expandem no olhar de quem escuta.
E, quando a gente percebe…
já atravessou uma porta
que não estava ali antes.
Fim da segunda temporada.



