JOYCE ALMEIDA
Em todo o mundo, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais está crescendo mais rapidamente do que qualquer outra faixa etária. O aumento da expectativa de vida e o envelhecimento populacional é uma realidade atual no Brasil. Este cenário, além de mostrar o nível de desenvolvimento do país, impõe muitos desafios e temas importantes para ser debatido, como por exemplo, o Etarismo.
Segundo a médica geriatra, Camila Almeida, o Etarismo, também conhecido por Ageísmo ou Idadismo, é o termo usado para conceituar o preconceito contra os idosos, com base puramente na idade, sem que a real condição de funcionalidade daquele indivíduo fosse levada em conta. “O Etarismo aparece em frases muito comuns em nosso cotidiano, advindas de estereótipos e de crenças equivocadas e discriminatórias, como: ‘você está muito velho pra isso’; ‘idoso não dá mais conta de trabalhar’; ‘esse lugar não é adequado para idoso’; ‘não é certo idoso iniciar um relacionamento’; ‘você não tem mais idade para se vestir dessa maneira’; ‘idoso não pode viajar sozinho’; ‘está querendo parecer uma mocinha’; ‘nossa, você está tão bem, nem parece ter a idade que tem’; ‘você deve ter sido bonito quando era jovem’. Outro exemplo também é a clara dificuldade que pessoas mais velhas enfrentam para ter acesso a cargos de trabalho, ainda que estejam aptas a exercê-los, não conseguem apenas por questões de idade”, explica.
Conforme o artigo 96 do Estatuto do Idoso – Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003 – a discriminação mediante a idade, com atos de humilhação, desdém, menosprezo, intimidação ou impedimento e dificultação do acesso a operações bancárias, meio de transporte, entre outras coisas, constitui-se como crime, com previsão de pena de reclusão. “Essas ideias, concepções e atitudes contra as pessoas mais velhas, acabam gerando isolamento, sentimento de exclusão e inutilidade, além do agravamento de doenças, como a depressão”, pontua a geriatra.
A especialista afirma ainda que para combater o Etarismo é necessário que a população tenha acesso a informação de qualidade, além da conscientização sobre as falas, crenças, para que não sejam feitos julgamentos maldosos. “Ter uma visão negativa sobre o envelhecimento, é basicamente uma intolerância contra o próprio futuro. Devemos cuidar bem da pessoa idosa, pois esse ato de amor hoje é valorizar o passado e se preparar para o futuro. Pois, se chegamos até aqui, é porque várias pessoas antes de nós batalharam bastante para que tivéssemos melhores condições de vida. Temos que retribuir com toda nossa gratidão, cuidado e amor”.
Idosos no Brasil são muito mais ativos hoje em dia

Já foi mostrado que as pessoas estão, de fato, vivendo mais, e alguns questionamentos que devem ser refletidos são: esse aumento da longevidade se deve por ter mais qualidade de vida ou não? A população está se preparando para os próximos anos? Existem planejamentos voltados a termos estruturais, habitacionais e financeiros? De acordo com a Drª. Camila Almeida, cuidar da saúde hoje é colher bons frutos amanhã.
De acordo com o IBGE, no período entre 2012 e 2021, a parcela de pessoas com mais de 60 anos saltou de 11,3% para 14,7% da população. Em números absolutos, esse grupo etário passou de 22,3 milhões para 31,2 milhões, o que significa um crescimento de 39,8% no período de 10 anos. “Toda essa mudança na dinâmica demográfica exige um novo olhar sobre a pessoa idosa, em diversos âmbitos da sociedade, como: na organização familiar; nas políticas governamentais; previdenciárias; assim como também nos serviços de saúde e na acessibilidade de espaços públicos”, esclarece a médica.
A profissional avalia e esclarece sobre como se caracteriza o perfil do idoso atualmente, visto que ao longo desses anos, a realidade em geral mudou bastante. “Temos um grupo crescente de pessoas idosas que estão envelhecendo muito bem. São pessoas ativas, participativas em questões sociais, econômicas, culturais, espirituais e civis. Inclusive buscam um estilo de vida mais saudável, com foco em manter a mente e o corpo em atividade. Muitos idosos também estão melhorando não só o padrão alimentar, mas estão acompanhando regularmente a saúde prevenindo problemas posteriores”, afirma.
Segundo ela, o processo de envelhecimento se caracteriza por uma importante heterogeneidade. “É fato que não envelhecemos todos iguais, então, é uma falha grave considerar a idade cronológica como parâmetro único para a tomada de decisões. Podemos ter, por exemplo, duas pessoas com mesma idade em condições completamente diferentes, em termos de saúde, de independência, de funcionalidade. Há pessoas de 60 anos trabalhando, viajando, empreendendo, se casando, em contrapartida de outras que se encontram em condições graves, limitantes e acamadas. Logo, frases do tipo ‘isso é coisa da idade’, traz consigo uma intepretação equivocada sobre o envelhecimento”.
Portanto, como diz a geriatra, envelhecer bem não é sinônimo de ausência de doenças, mas significa manutenção da autonomia. “Em termos mais claros, diz respeito a manter-se funcional, capaz de realizar suas atividades de maneira independente. Esse conceito não tem a ver com idade ou com a presença ou não de doenças, pois temos um grupo de pessoas idosas frágeis, em que as limitações à funcionalidade já estão instaladas. Nesses casos, cabe o despertar da família sobre a necessidade de cuidados, por exemplo: como a família irá se organizar nesses cuidados, de modo a não sobrecarregar ninguém? Haverá a necessidade de contratar um cuidador profissional ou de uma instituição de longa permanência? Quais as adaptações precisam ser feitas? Qual será a equipe de profissionais que irá acompanhar esse processo? Existem políticas públicas voltadas ao suporte adequado para esse contingente de pessoas, de modo a garantir a efetividade de seus direitos de proteção, cuidado, dignidade?”, orienta a especialista.
A Dra. Camila conclui informando que para estimular o envelhecimento ativo e a longo prazo, é necessário que haja um planejamento estruturado com passos do que deve ser feito. Pensando nisso, foi criado o plano para a Década do Envelhecimento Saudável 2020-2030, pela Estratégia Global da OMS sobre envelhecimento e saúde. Esse projeto tem o intuito de promover a colaboração sustentada em prol do envelhecimento saudável pelos próximos dez anos, através da parceria entre o poder público, organizações diversas e a sociedade. (JOYCE ALMEIDA – Sob supervisão de Stênio Aguiar)


