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EDITORIAL —  DO 11 DE SETEMBRO AO BRASIL DE HOJE - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL —  DO 11 DE SETEMBRO AO BRASIL DE HOJE

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

Vinte e cinco anos depois dos atentados, a discussão sobre a influência americana ganhou uma dimensão inesperada na própria política brasileira.

Em vez de apenas observar Washington como potência estrangeira, parte da direita brasileira passou a buscar diretamente no governo dos Estados Unidos uma forma de pressão sobre instituições brasileiras.

O movimento ganhou força durante o governo de Donald Trump, especialmente em torno dos processos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e decisões do Supremo Tribunal Federal.

Eduardo Bolsonaro passou a atuar nos Estados Unidos em busca de apoio político para pressionar autoridades brasileiras. Em 2025, participou de articulações para a adoção de medidas americanas contra o ministro Alexandre de Moraes e chegou a defender sanções contra autoridades brasileiras.

O governo Trump efetivamente adotou medidas de pressão. Em julho de 2025, os Estados Unidos anunciaram sanções contra Moraes e também impuseram uma tarifa de 50% sobre grande parte dos produtos brasileiros exportados para o mercado americano, vinculando publicamente a medida às críticas ao processo contra Bolsonaro.

Em 2026, a pressão continuou. Eduardo Bolsonaro afirmou que ele e aliados haviam solicitado ao governo americano a reativação das sanções da Lei Magnitsky contra Moraes.

O episódio cria um contraste histórico difícil de ignorar.

Durante décadas, a política externa americana foi marcada pela disposição de intervir em outros países para enfrentar aquilo que Washington considerava ameaças à segurança, à democracia ou aos seus interesses.

Agora, no Brasil, setores da direita que defendem uma determinada visão de democracia e de liberdade passaram a recorrer justamente à potência estrangeira para pressionar instituições nacionais.

A questão, portanto, deixa de ser apenas ideológica.

É também uma questão de soberania.

Quando brasileiros pedem ao governo de outro país que utilize sanções econômicas, diplomáticas ou políticas para interferir em uma disputa interna, o debate deixa de ser exclusivamente brasileiro e passa a envolver relações internacionais.

E a história do último meio século oferece um alerta importante: toda intervenção produz consequências que nem sempre podem ser controladas por quem a inicia.

O mesmo princípio que vale para Washington vale para qualquer país.

Uma potência estrangeira pode ser convocada como aliada para resolver um problema imediato. Mas, uma vez aberta essa porta, ninguém controla completamente até onde a pressão pode chegar, quais interesses passarão a ser envolvidos e quais consequências permanecerão depois que a crise terminar.

O Brasil vive hoje uma forte polarização política e uma crise de confiança entre diferentes setores da sociedade, instituições e grupos políticos. A disputa envolve o Executivo, o Congresso, o Judiciário, lideranças da direita e da esquerda e uma sociedade profundamente dividida.

Nesse ambiente, recorrer ao exterior pode parecer, para alguns grupos, uma forma de conseguir força diante de instituições consideradas adversárias.

Mas a História mostra que alianças internacionais não são atos de solidariedade desinteressada.

Estados defendem interesses.

Governos mudam.

Presidentes passam.

As circunstâncias geopolíticas se transformam.

E aquilo que hoje parece uma ajuda pode amanhã se transformar em dependência, pressão ou conflito diplomático.

Essa talvez seja uma das grandes lições que o aniversário de 25 anos do 11 de Setembro oferece.

A História não começou nas Torres Gêmeas.

Ela começou muito antes, em decisões tomadas em gabinetes de governos, em campos de batalha, em alianças estratégicas e em escolhas que pareciam necessárias diante das ameaças de cada época.

E também não terminou quando as torres caíram.

As consequências atravessaram o Afeganistão, o Iraque, o Oriente Médio e chegaram ao debate político de outras democracias.

Hoje, o paradoxo está diante dos olhos: parte da direita brasileira, que costuma defender a soberania nacional e a força das instituições brasileiras, passou a pedir socorro justamente ao governo norte-americano para pressionar o próprio Brasil em meio à sua crise política.

É um novo capítulo de uma velha história.

E talvez o conceito de blowback sirva também para ele: quando decisões tomadas para enfrentar uma crise produzem outra, as consequências podem aparecer muito longe do lugar onde tudo começou.

A História, afinal, raramente termina quando os governos anunciam que terminou.