Mateus Simões assinou decreto que cria Comitê El Niño e anunciou 94 milhões de litros de água para municípios em situação de emergência; dez cidades já aguardam atendimento
O avanço da estiagem e a previsão de chuvas abaixo do esperado nos próximos meses levaram o Governo de Minas Gerais a antecipar medidas de enfrentamento no Norte de Minas. Durante visita a Montes Claros nesta quarta-feira (2), o governador Mateus Simões anunciou a retomada da Operação Pipa na região, atendendo a uma reivindicação da Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene (AMAMS), e assinou decreto que cria o Comitê Estadual Gestor para Anormalidades Climáticas, com foco nos possíveis impactos do fenômeno El Niño.

A estrutura terá a participação de órgãos do Estado para coordenar ações de preparação, prevenção, resposta e mitigação diante das alterações climáticas. O governo também anunciou a edição de um Decreto de Emergência para permitir a adoção de medidas destinadas a reduzir os efeitos da estiagem em Minas Gerais.
Durante o evento, realizado na sede do 10º Batalhão da Polícia Militar, onde também funciona a Regional de Defesa Civil, Mateus Simões destacou a importância de agir antecipadamente diante das previsões meteorológicas.
“Como nós já temos a informação técnica de que chegará o problema, nós temos condição de nos antecipar”, afirmou o governador.
Segundo o governo estadual, a previsão é de redução no volume de chuvas esperado para a região até o final do ano. A estimativa apresentada pelo governador aponta uma diminuição entre 50 e 100 milímetros em relação aos pouco mais de 400 milímetros de chuva esperados para o período.
A redução pode trazer impactos para diferentes setores da economia e para o cotidiano das comunidades rurais. Entre os principais riscos estão prejuízos à agricultura, falta de água para a criação de animais, aumento das ocorrências de incêndios em vegetação e possibilidade de desabastecimento para consumo humano.
80 caminhões-pipa e 94 milhões de litros de água
Como medida emergencial, o Estado anunciou a disponibilização de 80 caminhões-pipa para atender municípios atingidos pela estiagem. Ao todo, serão disponibilizados 94 milhões de litros de água, volume estimado pelo governo como suficiente para atender aproximadamente 215 mil pessoas.
De acordo com Mateus Simões, a forma de distribuição será definida conforme a realidade de cada município e dependerá da existência de situação de calamidade e de um plano de atuação.

“A estratégia de distribuição dessa água depende do município estar em calamidade, e de um plano de atuação, porque há cidades em que a gente usa o pipa para abastecer a caixa central, há comunidades em que a gente tem que fazer abastecimento porta a porta para poder usar o caminhão-pipa”, explicou.
Segundo o governo, dez municípios já estão na fila para receber atendimento, enquanto a Defesa Civil acompanha a situação das demais cidades mineiras que podem necessitar do suporte emergencial.
A retomada da Operação Pipa atende diretamente a uma solicitação apresentada pela AMAMS, que vem cobrando ações preventivas para garantir o abastecimento das comunidades mais vulneráveis durante a estiagem.
AMAMS cobra preparação dos municípios
O presidente da AMAMS e prefeito de São João da Lagoa, Ronaldo Soares Mota Dias, destacou que a entidade vem trabalhando para mobilizar os municípios e antecipar medidas diante dos possíveis efeitos do El Niño.
No dia 25 de agosto, a associação realizou, em Montes Claros, um Seminário Técnico sobre o fenômeno climático, reunindo autoridades estaduais, representantes da FAEMG, Defesa Civil e gestores municipais para discutir estratégias de prevenção e enfrentamento.
“A AMAMS tem atuado de forma firme na defesa dos municípios do Norte de Minas, especialmente diante da preocupação com os possíveis impactos do El Niño”, afirmou Ronaldo.
O presidente da entidade também destacou a força-tarefa anunciada pela Secretaria de Estado de Agricultura para equipar poços artesianos que já foram perfurados na região, mas ainda não estão em funcionamento.
“Não basta apenas perfurar o poço; é preciso garantir que ele esteja equipado e funcionando para atender as comunidades que mais precisam. A AMAMS continuará cobrando e acompanhando essas ações para que os municípios estejam mais preparados para enfrentar a seca”, ressaltou.
Por meio do Departamento de Defesa Civil, a associação orientou prefeitos e coordenadores municipais a acionarem a Defesa Civil Estadual e as Regionais de Defesa Civil para apresentar as demandas locais e os respectivos planos de trabalho.
A recomendação é que os municípios mantenham atualizados os levantamentos das comunidades que necessitam de abastecimento emergencial. A medida permite organizar previamente as ações e agilizar o atendimento das localidades mais vulneráveis.
Falta de água já afeta comunidades
A situação já é realidade em algumas cidades do Norte de Minas. Em Ibiaí, comunidades localizadas mais distantes do Rio São Francisco enfrentam dificuldades para ter acesso à água, segundo a prefeita Maurina Mota Matos.
Mesmo estando às margens do rio, o município possui localidades rurais afastadas que dependem do transporte de água por caminhões-pipa.
“As comunidades afastadas do rio sentem a falta de água até para o consumo humano. Hoje a população é abastecida por caminhões-pipa, e a prefeitura não consegue abastecer todos satisfatoriamente. Essas medidas chegam em um bom momento para minimizar esse sofrimento”, afirmou a prefeita.
O caso de Ibiaí demonstra que a existência de grandes rios na região não significa, necessariamente, acesso regular à água para todas as comunidades. Distância, infraestrutura e condições de abastecimento são fatores que aumentam a vulnerabilidade de determinadas localidades durante períodos prolongados de seca.
Período crítico para incêndios
Além da preocupação com o abastecimento, a estiagem aumenta o risco de incêndios em áreas rurais e de vegetação nativa. O Corpo de Bombeiros alerta que o período entre o início de setembro e o começo de outubro é considerado especialmente crítico para esse tipo de ocorrência.
O subcomandante regional dos Bombeiros, coronel Gontijo, chamou a atenção para os riscos provocados pela combinação de vegetação seca, baixa umidade e temperaturas elevadas.
“O início de setembro até o início de outubro é o período mais crítico para os incêndios em vegetação, e o fenômeno El Niño também agrava essa situação. Então, é importante que a população não faça nenhum tipo de queimada neste momento, porque o risco de alastrar e perder o controle é grande”, alertou.
Com a vegetação mais seca, as chamas podem se espalhar rapidamente por lotes, áreas rurais e regiões de mata, dificultando o controle dos incêndios e aumentando os danos ambientais.
Prevenção como estratégia
A criação do Comitê El Niño e a retomada da Operação Pipa fazem parte de uma estratégia de antecipação dos problemas provocados pela estiagem. A intenção do Estado é atuar antes que a falta de água se agrave e ampliar a capacidade de resposta dos municípios.
Para o Norte de Minas, onde comunidades rurais historicamente enfrentam períodos de escassez hídrica, o planejamento ganha importância diante da previsão de redução das chuvas.
A orientação aos gestores municipais é identificar as localidades mais vulneráveis, apresentar as demandas à Defesa Civil e manter os planos de trabalho atualizados. A partir dessas informações, o Estado deverá organizar o atendimento emergencial com os caminhões-pipa e demais medidas de suporte.
A AMAMS informou que continuará acompanhando as ações anunciadas pelo Governo de Minas e cobrando investimentos e medidas que contribuam para ampliar a segurança hídrica dos municípios do Norte de Minas.


