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Crédito, Conservação e Desenvolvimento: uma agenda para a Caatinga - Rede Gazeta de Comunicação

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Crédito, Conservação e Desenvolvimento: uma agenda para a Caatinga

José Aldemir Freire

Diretor de Planejamento do Banco do Nordeste

A discussão sobre mudanças climáticas costuma ser apresentada a partir de grandes números, metas globais e compromissos de redução de emissões. Tudo isso é necessário. Mas existe uma dimensão igualmente importante, e muitas vezes menos visível: a capacidade de financiar a adaptação de quem vive nos territórios mais vulneráveis às mudanças do clima.

No Semiárido brasileiro, essa discussão ganha contornos ainda mais concretos. São aproximadamente 1,3 milhão de quilômetros quadrados, onde vivem mais de 32 milhões de pessoas, em um território marcado por uma relação histórica entre sociedade, atividade econômica e natureza.

A Caatinga é parte essencial dessa relação. Preservá-la, restaurá-la e promover seu uso sustentável não são agendas dissociadas do desenvolvimento regional. Ao contrário: são dimensões de um mesmo desafio — construir um Semiárido mais produtivo, resiliente e preparado para as transformações climáticas.

Foi com essa visão que o Banco do Nordeste apresentou, na COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, em Ulaanbaatar, na Mongólia, sua experiência de financiamento climático para regiões semiáridas.

O ponto de partida é reconhecer que não há uma solução única. A transição para uma economia mais resiliente exige diferentes instrumentos financeiros, adequados às características de cada território e de cada produtor.

Na Caatinga, essa necessidade é especialmente evidente. Entre 82% e 84% dos estabelecimentos rurais são formados por agricultores familiares. São milhões de pessoas que produzem, geram renda e, ao mesmo tempo, têm sua atividade diretamente ligada à conservação dos recursos naturais.

Por isso, nossa estratégia combina três frentes: o financiamento de práticas agrícolas sustentáveis; o apoio à preservação e à restauração do bioma; e a utilização estratégica de recursos não reembolsáveis para projetos que ampliem a capacidade de adaptação e recuperação ambiental.

Os recursos não reembolsáveis têm papel importante nesse processo. Eles permitem apoiar iniciativas de pesquisa, inovação, recuperação de áreas degradadas, combate à desertificação e conservação da biodiversidade, inclusive em situações nas quais o crédito tradicional não é o instrumento mais adequado.

O Banco do Nordeste conta, para isso, com o Fundo Sustentabilidade e o Fundeci, que disponibilizaram cerca de R$ 120 milhões em recursos não reembolsáveis nos anos de 2025 e 2026.

Ao mesmo tempo, é necessário ampliar a escala. Nos últimos dois anos, chamadas públicas estruturadas pelo BNB, em parceria com outras instituições, já reuniram uma base de projetos em desenvolvimento correspondente a quase 6 mil hectares de preservação e restauração da Caatinga. Essa agenda também precisa estar conectada ao financiamento da transformação produtiva. Para 2026, o Banco projeta aplicar mais de R$ 5,1 bilhões por meio do FNE Verde, apoiando investimentos relacionados à transição ecológica.

O que essa experiência demonstra é que financiamento climático não deve ser visto apenas como um mecanismo para responder aos efeitos das mudanças do clima. Ele pode ser também um instrumento de desenvolvimento.

Quando uma propriedade recupera uma área degradada, adota práticas agrícolas mais eficientes ou incorpora tecnologias adaptadas às condições do Semiárido, estamos falando simultaneamente de conservação ambiental, produtividade, geração de renda e maior capacidade de enfrentar períodos de seca e outros eventos extremos. Essa integração é particularmente importante para regiões semiáridas, onde a relação entre clima, água, produção e qualidade de vida é tão direta.

A Caatinga, nesse contexto, não deve ser vista apenas como um patrimônio ambiental a ser protegido. É um bioma que precisa ser conhecido, valorizado e manejado de forma sustentável, criando novas possibilidades econômicas e sociais para quem vive nele. O desafio do financiamento climático é justamente transformar essa visão em escala.Não se trata de escolher entre desenvolvimento e preservação. Trata-se de financiar um modelo de desenvolvimento capaz de preservar seus recursos naturais, gerar oportunidades e aumentar a resiliência das comunidades.

Esse é um dos caminhos para construir um Semiárido preparado para o clima do futuro: mais sustentável, mais produtivo e com maior capacidade de transformar seus próprios ativos naturais em oportunidades de desenvolvimento.