Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Montes-clarense de coração, empresária construiu trajetória marcada por vendas, gestão e relacionamento com clientes e agora aposta na expansão de uma marca de café especial.
Há pessoas que passam pela vida profissional acumulando empregos. Outras acumulam experiências. Michely Cristine Borges de Moura pertence ao segundo grupo. Aos 49 anos, ela olha para trás e percebe que cada etapa de sua trajetória ajudou a construir a profissional e a empreendedora que é hoje.
Nascida em Ipatinga e criada em Montes Claros desde os cinco anos, Michely fez da cidade sua casa, construiu vínculos, estudou, formou-se em Administração pela Unimontes e percorreu diferentes segmentos do mercado. Financiamento de veículos, setor bancário, mercado imobiliário, vendas diretas, trade marketing, energia solar e gestão comercial fizeram parte de uma carreira marcada pelo contato permanente com pessoas, metas, negociações e resultados.
Agora, essa experiência ganha um novo significado. Em vez de trabalhar para uma grande organização, Michely decidiu colocar seu conhecimento a serviço de um empreendimento próprio. A aposta é em uma franquia do Café Caramello, com atuação inicialmente em Montes Claros e Pirapora e planos de expansão para outras cidades do Norte de Minas.
A história, porém, começou muito antes da chegada ao empreendedorismo.
Desde menina, Michely já demonstrava iniciativa. Aos 12 anos, quando o pai precisava comprar o material escolar dos filhos e não tinha tempo para fazê-lo, ela assumia a tarefa. Pegava a lista, ia até a loja e resolvia. Poucos anos depois, já buscava uma atividade profissional e ingressava no universo das vendas diretas.
Era o início de uma característica que permaneceria presente ao longo de toda a sua vida: a necessidade de fazer, resolver, aprender e seguir em frente.
Na faculdade, além da formação acadêmica, veio a experiência prática ao lado do pai, na equipe de vendas. Depois, no último ano do curso, surgiu a oportunidade de ingressar em uma financeira ligada ao setor automotivo. Vieram os financiamentos de veículos, o relacionamento com concessionárias nas financeiras do Unibanco e Itaú.
A experiência também se estendeu ao mercado imobiliário, onde Michely se especializou e permaneceu por aproximadamente três anos. Mas foi em uma grande empresa de vendas diretas, a Avon Brasil, que encontrou um dos períodos mais importantes de sua formação profissional.
Durante cerca de oito anos, como gerente de área, passou a administrar uma extensa região, envolvendo aproximadamente 20 cidades e distritos, centenas de revendedoras e líderes de equipe. Era uma rotina de viagens, metas, acompanhamento de resultados e, sobretudo, relacionamento.
Mais do que vender, era necessário compreender pessoas. Motivar, orientar, acompanhar e construir confiança passaram a fazer parte do cotidiano.
Essa habilidade seria decisiva anos mais tarde.
Depois, Michely conheceu o universo do trade marketing no segmento farmacêutico, trabalhando com posicionamento de produtos, negociações, campanhas e lançamentos. Mais uma vez, estava diante de um mercado em que estratégia, comunicação e relacionamento eram fundamentais.
Na sequência, veio o setor de energia solar, ampliando ainda mais sua experiência em prospecção, negociação e relacionamento empresarial.
Ao observar essa trajetória, fica evidente que a decisão de empreender não surgiu do acaso. Ela é, na verdade, consequência de uma carreira inteira construída em torno da iniciativa, da capacidade de negociação e da compreensão do comportamento do consumidor.
Quando deixou o mercado corporativo, Michely imaginou inicialmente que poderia descansar. Não demorou para perceber que ficar parada não combinava com sua personalidade.
Começou, então, a pesquisar possibilidades.
Foi nesse processo que conheceu o Café Caramello pela internet. A curiosidade profissional falou mais alto. Michely pesquisou a marca, a fábrica, os produtos e o modelo de negócio. Em pouco tempo, decidiu adquirir a franquia on-line e iniciou as vendas pela internet.
O resultado surpreendeu.
Com aproximadamente 30 dias de operação, alcançou a primeira colocação nas vendas on-line da marca no Brasil. Mais do que um número, o resultado demonstrou que sua experiência acumulada ao longo de décadas poderia ser aplicada em um negócio próprio.
A própria empresa percebeu o desempenho e apresentou a possibilidade de uma franquia física.
Michely aceitou o desafio.
A proposta encontrou espaço justamente porque não se limita ao conceito tradicional de uma loja. O modelo permite trabalhar com pronta-entrega, delivery, eventos, degustações, parcerias e diferentes canais de comercialização.
E é justamente nessa multiplicidade de possibilidades que a empresária enxerga o potencial do negócio.
O produto também favorece essa estratégia. O Café Caramello apresenta diferentes versões e sabores e pode ser consumido quente ou gelado, além de utilizado em receitas e combinações diversas. A linha inclui opções tradicionais, sabores diferenciados, versões mais intensas, descafeinadas e alternativas sem açúcar, lactose e glúten.
Para Michely, entretanto, o principal diferencial está em entender que não existe um único consumidor.
A experiência adquirida no comércio ensinou que vender não significa oferecer tudo para todos. É necessário identificar públicos, compreender necessidades e apresentar o produto adequado para cada perfil.
É uma filosofia que ela pretende levar para a expansão do negócio no Norte de Minas.
Montes Claros e Pirapora aparecem como bases desse novo momento. A estratégia é consolidar a operação antes de avançar para outras cidades. Eventos, empresas, cafeterias, parceiros comerciais e delivery estão entre os caminhos que podem ampliar a presença da marca na região.
A cautela demonstra que empreender, para Michely, não significa simplesmente crescer rapidamente. Significa crescer com estrutura.
Essa talvez seja uma das principais lições de sua trajetória.
Em um ambiente em que muitas vezes o empreendedorismo é apresentado apenas pelo lado glamouroso, a história de Michely revela uma realidade diferente: empreender exige planejamento, estudo, disposição para assumir riscos e, principalmente, trabalho.
Ela sabe disso porque passou décadas vivendo o mercado comercial por dentro.
Cada venda, cada negociação, cada viagem, cada meta e cada relacionamento construído ao longo dos anos ajudaram a formar um repertório que agora está sendo utilizado em benefício de um projeto próprio.
Aos 49 anos, Michely também demonstra que recomeçar não é sinônimo de começar do zero.
Quem recomeça leva consigo tudo aquilo que aprendeu.
A experiência bancária trouxe disciplina. O mercado imobiliário trouxe conhecimento de negociação. As vendas diretas ensinaram gestão de pessoas e relacionamento. O trade marketing acrescentou visão estratégica. A energia solar ampliou sua experiência comercial. E agora o empreendedorismo reúne todas essas competências em uma única direção.
Há, portanto, muito mais do que café nessa nova história.
Existe uma mulher que decidiu transformar inquietação em iniciativa, experiência em oportunidade e conhecimento em negócio.
Existe também uma empresária que pretende fazer do Norte de Minas não apenas um mercado consumidor, mas um território de expansão.
Michely não esconde que ainda há muito a construir. Quer consolidar a operação, ampliar a presença em Montes Claros e Pirapora e, gradativamente, alcançar outras cidades. Pretende fortalecer parcerias, participar de eventos e aproximar o produto de empresas, cafeterias e consumidores.
Tudo isso sem abrir mão de uma convicção: crescimento precisa ser sustentável.
Sua história também conversa com uma característica muito presente no empreendedorismo regional. Em cidades como Montes Claros, negócios ganham força quando conseguem unir conhecimento, relacionamento e capacidade de enxergar oportunidades onde outros ainda não perceberam.
Michely fez exatamente isso.
Encontrou um produto que despertou sua atenção, estudou o mercado, testou sua capacidade de venda, alcançou resultados expressivos e, a partir daí, decidiu transformar uma experiência virtual em uma operação com presença física e perspectiva de expansão.
No fim, talvez a grande mensagem de sua trajetória esteja menos no café e mais na coragem de mudar.
Mudar depois de anos de carreira. Mudar quando seria mais confortável permanecer naquilo que já se conhece. Mudar para assumir riscos e construir algo com identidade própria.
Porque empreender também é isso: acreditar que aquilo que aprendemos ao longo da vida pode servir de matéria-prima para um novo começo.
E Michely parece ter entendido essa fórmula muito bem.
Para ela, a xícara de café pode ser apenas o ponto de partida. O verdadeiro projeto é maior: construir uma marca, estabelecer relações, gerar oportunidades e transformar uma experiência pessoal em um negócio capaz de alcançar diferentes cidades do Norte de Minas.
Aos 49 anos, a empresária não está começando novamente.
Está começando uma nova etapa — levando consigo toda a experiência que a vida profissional lhe ensinou.
E, desta vez, o café é dela.


