Marcela Andrade Amaral
Psicóloga clínica, pós-graduada em ABA e Avaliação Psicodiagnóstica
É muito comum que os pacientes confundam uma crise de ansiedade com um transtorno de pânico. Na verdade, os dois estão bem longe de ser a mesma coisa. O transtorno de pânico envolve um medo adquirido de algumas sensações corporais relacionadas ao pânico e, em alguns casos, à agorafobia como uma resposta comportamental à previsão dessas sensações ou à possibilidade de sua evolução para um ataque de pânico. Isso geralmente vem acompanhado de percepções de perigo ou ameaça iminente, como medo de morrer, perder o controle ou ser ridicularizado publicamente.
É comum que alguns pacientes comecem a acreditar que podem morrer durante um ataque. A partir disso, passam a fiscalizar constantemente todas as sensações do corpo: observam os batimentos cardíacos, a respiração, qualquer tontura, alteração corporal ou sensação diferente. Alguns chegam a desenvolver medo de dormir e tentam postergar o início do sono porque temem perder o controle enquanto estiverem dormindo ou apresentar uma nova crise durante a noite.
A quantidade de pessoas que hoje não conseguem dormir sem medicamentos é preocupante. Muitas acabam desenvolvendo uma relação de dependência psicológica com a ideia de que só conseguirão desligar as preocupações ou ter um sono reparador se utilizarem alguma medicação. Por isso, é importante compreender que o tratamento não deve estar voltado apenas para eliminar uma crise naquele momento, mas também para compreender e modificar os mecanismos que mantêm o medo.
Experiências de abuso sexual e físico na infância também podem estar relacionadas ao desenvolvimento do transtorno de pânico. O ambiente influencia muito a saúde mental, apesar da participação de fatores genéticos e do temperamento. Existe uma quantidade significativa de pacientes que, ao longo do processo terapêutico, ao investigarmos sua história de vida, apresentam histórico de experiências traumáticas na infância. Em alguns casos, as sensações de pânico que aparecem principalmente durante a noite podem estar relacionadas a memórias e associações construídas a partir dessas experiências.
Por isso, compreender a história de vida do paciente é fundamental. O medo agudo das sensações corporais relacionadas ao pânico costuma estar associado a avaliações catastróficas dessas sensações: interpretações equivocadas de que determinado sinal do corpo significa uma morte iminente, uma perda de controle ou alguma consequência grave.
É justamente por isso que um dos primeiros momentos da psicoeducação está voltado para ajudar o paciente a se reconectar com as próprias sensações corporais, principalmente aquelas que ele mais teme. O objetivo não é simplesmente dizer que “não há nada acontecendo”, mas ajudá-lo a compreender o que está acontecendo, reconhecer as sensações e perceber que uma sensação desconfortável não necessariamente representa um perigo.
A reestruturação cognitiva também é uma parte importante desse processo. Ela ajuda a identificar e questionar pensamentos que alimentam o ciclo do pânico. Afinal, muitas vezes o paciente não tem medo apenas da ansiedade: ele passa a ter medo de sentir ansiedade.
E esse é um dos pontos mais importantes do tratamento: em determinados momentos, precisamos justamente nos aproximar dos medos de que o paciente passou tanto tempo tentando evitar. Isso não significa colocar a pessoa em uma situação assustadora de maneira brusca ou irresponsável. A exposição é planejada, gradual e segura, respeitando o momento e as condições de cada paciente.
Também existe uma discussão importante sobre quando inserir o medicamento junto ao tratamento psicológico. A medicação pode fazer parte do cuidado em determinados casos e deve ser avaliada pelo profissional médico responsável. Da mesma forma, mudanças ou retirada de medicamentos, especialmente benzodiazepínicos, precisam ser acompanhadas por um médico. A retirada inadequada pode estar associada ao retorno ou à intensificação dos sintomas, por isso esse processo nunca deve ser feito por conta própria.
No processo terapêutico, utilizo o modelo de hierarquia de exposição, que funciona como uma espécie de escada. Eu e o paciente construímos juntos os passos necessários para que ele possa se aproximar, gradualmente, do objetivo que deseja alcançar. A ideia é que o tratamento tenha um destino observável: voltar a dormir sem medo, conseguir sair sozinho, dirigir, frequentar determinados lugares, permanecer em uma situação sem precisar fugir ou simplesmente recuperar a liberdade que o medo foi diminuindo aos poucos.
Ao longo desse processo, os experimentos comportamentais ajudam o paciente a testar suas próprias previsões e perceber, na prática, que muitas das consequências temidas não acontecem da maneira como ele imaginava. Com isso, ele começa a desenvolver mais confiança, não necessariamente porque a ansiedade desapareceu completamente, mas porque passa a acreditar mais na própria capacidade de tolerar e manejar aquilo que sente.
O transtorno de pânico pode fazer a vida parecer muito menor. Aos poucos, a pessoa começa a evitar lugares, situações, sensações e até momentos do dia que antes eram comuns. Mas esse ciclo pode ser trabalhado.
O objetivo da terapia não é prometer que você nunca mais sentirá ansiedade. É ajudá-lo a compreender o que acontece no seu corpo, questionar as interpretações que alimentam o medo e recuperar, gradualmente, a liberdade que foi sendo limitada pelas crises. Você não precisa continuar organizando sua vida em torno do medo de ter uma crise. Existe tratamento, existe um caminho possível e, principalmente, existe a possibilidade de voltar a confiar no próprio corpo e em si mesmo.
Se você percebe que o medo das sensações do seu corpo, as crises ou a preocupação constante estão limitando sua vida, procure ajuda profissional. Eu posso te acompanhar nesse processo, construindo junto com você um tratamento gradual, seguro e baseado em
evidências, respeitando a sua história e o seu ritmo.


