Fernando Madureira
Empresário, bancário
Nos últimos anos, as apostas esportivas online, as chamadas “bets”, deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se tornarem um desafio econômico e social de proporções alarmantes no Brasil. O que foi apresentado como atividade recreativa hoje desperta preocupação entre economistas, especialistas em saúde mental e entidades do setor de crédito e comércio.
A dimensão financeira desse fenômeno é expressiva. Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que as apostas retiraram aproximadamente R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro entre janeiro de 2023 e março de 2026. Recursos que deveriam ser destinados ao consumo de bens essenciais como alimentos, vestuário e serviços migraram para um setor que gera pouco retorno à economia produtiva local.
O impacto vai muito além das vendas perdidas pelo comércio. Estudos do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) apontam que os efeitos das apostas sobre a saúde pública, produtividade, desemprego e segurança representam um custo social estimado em R$ 38,8 bilhões por ano. Ao subtrairmos o valor dos prêmios retornados aos jogadores, chega-se a um custo líquido para a sociedade de R$ 23,9 bilhões anuais, montante que deixa de circular na economia real para ser absorvido pela cadeia das apostas.
O sinal de alerta mais crítico reside na inadimplência.
Pesquisas da Serasa indicam que uma parcela significativa de brasileiros tem comprometido partes relevantes da renda familiar em busca de ganhos imediatos. Em diversos casos, o pagamento de contas básicas e o adimplemento de dívidas são postergados em favor das apostas, criando um ciclo de endividamento perigoso. Em fevereiro de 2026, o Brasil atingiu a marca de 81,7 milhões de consumidores inadimplentes; embora o problema tenha causas multifatoriais, estudos confirmam que as bets tornaram-se um vetor determinante nesse cenário, afetando especialmente as famílias de menor renda, mais vulneráveis à promessa de retorno financeiro rápido.
É fundamental compreender que, para o apostador médio, essa atividade não é percebida como lazer, mas como uma tentativa de melhorar a própria condição financeira. Essa distorção transforma as bets em algo pernicioso: a expectativa de solução para problemas econômicos termina, paradoxalmente, agravando-os.
O desafio para o país não se resume apenas à necessária regulamentação do setor, mas perpassa, obrigatoriamente, a educação financeira e a conscientização sobre os riscos. Assim como ocorreu com outras modalidades de azar ao longo da história, o verdadeiro custo das apostas não pode ser medido apenas pelo dinheiro perdido, mas pelos danos provocados nas famílias, na saúde mental e na sustentabilidade dos negócios.
Mais do que uma questão de escolha individual, as bets consolidaram-se como um tema macroeconômico que exige atenção das autoridades, instituições financeiras, empresas e da sociedade civil. O desenvolvimento do país depende da capacidade de frear essa drenagem de recursos e proteger a economia das famílias brasileiras.



