Com vitória de 6 a 2 sobre o Panamá, equipe de Ancelotti encerra longo jejum de goleadas elásticas; última vez tinha sido 7 a 0 contra Honduras em 2019
O Estádio do Maracanã assistiu, neste domingo (31 de maio), a uma exibição de força da Seleção Brasileira. Na segunda partida preparatória para a Copa do Mundo de 2026, o time comandado por Carlo Ancelotti goleou o Panamá por 6 a 2, em um jogo que teve domínio absoluto da equipe canarinho durante praticamente todos os 90 minutos. O placar elástico, porém, serviu para escancarar um dado surpreendente: o Brasil não marcava seis ou mais gols em uma única partida desde 9 de junho de 2019, há quase sete anos.
Naquela ocasião, ainda sob o comando de Tite, a Seleção atropelou Honduras por 7 a 0 no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, no último amistoso antes da Copa América de 2019. O resultado representou a maior goleada da Era Tite e também a maior vitória brasileira desde setembro de 2012, quando Mano Menezes comandara um 8 a 0 sobre a China. Ou seja, entre 2019 e 2026, a Canarinho passou mais de meia década sem conseguir impor um placar tão dilatado – uma curiosidade estatística que muitos torcedores sequer haviam notado.
“É curioso porque o Brasil sempre teve tradição de goleadas. O futebol ofensivo, o ‘jogo bonito’, frequentemente se traduzia em números elásticos contra adversários tecnicamente inferiores. Esse hiato de quase sete anos sem marcar seis ou mais gols mostra um período de futebol mais pragmático e, por vezes, menos brilhante”, analisa o comentarista e estatístico Rodrigo Mendes, do portal Futebol Data.
Como foi o 7 a 0 sobre Honduras
O amistoso de 2019 ficou marcado por uma atuação coletiva impecável. Na ocasião, a Seleção se preparava para a Copa América que seria disputada em solo brasileiro. Curiosamente, o jogo aconteceu poucos dias após um baque emocionante: Neymar havia sido cortado da competição por conta de uma lesão no tornozelo sofrida no amistoso contra o Catar. Sem sua principal estrela, muitos temiam uma queda de rendimento.
O que se viu em Porto Alegre foi exatamente o oposto. Logo aos oito minutos, Gabriel Jesus abriu o placar. Thiago Silva, de cabeça, ampliou aos 36 minutos da etapa inicial. Ainda no primeiro tempo, Philippe Coutinho, de pênalti, fez o terceiro. Na segunda etapa, o Brasil não diminuiu o ritmo: Gabriel Jesus marcou o quarto (seu segundo no jogo), David Neres fez o quinto, Roberto Firmino o sexto e Richarlison, já nos acréscimos, fechou a goleada em 7 a 0.
“Aquele time tinha uma fome de bola impressionante. Mesmo sem Neymar, jogadores como Coutinho e Gabriel Jesus estavam em grande fase. A goleada serviu como um aviso para os adversários da Copa América”, recorda o ex-atacante e hoje comentarista Walter Casagrande. Um mês depois, o Brasil confirmou o favoritismo e conquistou o título da Copa América de 2019, batendo o Peru na final por 3 a 1.
O longo jejum de goleadas (2019-2026)
O que pouca gente lembra é que, depois daquele 7 a 0, a Seleção Brasileira passou por 69 partidas oficiais e amistosos sem conseguir repetir a façanha de marcar seis ou mais gols. Houve vitórias expressivas, como 5 a 1 contra a Coreia do Sul na Copa de 2022, 4 a 1 sobre o Paraguai pelas Eliminatórias, e 5 a 0 diante do Peru em 2023. Mas o número mágico “6” nunca mais havia sido alcançado – até agora.
O confronto contra o Panamá, neste domingo, quebrou essa escrita. A equipe de Ancelotti construiu o 6 a 2 com gols de Vinicius Junior (duas vezes), Rodrygo, Raphinha, Lucas Paquetá e Endrick, este último saindo do banco para marcar um golaço aos 41 do segundo tempo. Apesar dos dois gols panamenhos, que surgiram em falhas pontuais de marcação, a impressão geral foi de um ataque brasileiro afiado e criativo, algo que o técnico italiano tem buscado incansavelmente desde sua chegada.
“Ancelotti pede intensidade e objetividade. A gente treina muito finalização e movimentação sem bola. Hoje deu certo. Seis gols é ótimo, mas poderia ter sido mais”, declarou Vinicius Junior na zona mista, ainda comemorando a atuação.
Números históricos: as maiores goleadas brasileiras
A goleada sobre Honduras (7 a 0) e a vitória sobre a China (8 a 0), em 2012, estão longe de serem as maiores da história da Seleção. O recorde absoluto pertence ao 14 a 0 aplicado sobre a Nicarágua, em 1975, em jogo válido pelos Jogos Pan-Americanos. Também são históricos os 12 a 0 sobre a Colômbia (1957) e 11 a 0 sobre o Haiti (1973). Em Copa do Mundo, a maior goleada brasileira foi 7 a 1 sobre a Suécia em 1950 (embora aquele jogo não tenha valido título) e 7 a 0 sobre a Polônia em 1938.
“A diferença é que, antigamente, o futebol mundial era muito mais desigual. Hoje, qualquer seleção média oferece alguma resistência. Por isso, fazer seis gols em um adversário como o Panamá – que se classificou para a Copa de 2026 – é sim um feito notável”, avalia o professor de história do esporte, Luciano Rocha.



