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Desafio de saúde pública atrai 38 startups ao Norte de Minas - Rede Gazeta de Comunicação

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Desafio de saúde pública atrai 38 startups ao Norte de Minas

Programa Co.NE, apoiado pela Sudene e parceiros, recebe propostas tecnológicas para reduzir filas de ortopedia e exames de raio-X; município é um dos quatro pilotos do ciclo de inovação aberta

 A aposta na inovação aberta como ferramenta de transformação da saúde pública começa a dar retratos concretos no interior mineiro. O programa Conexões Inovação Aberta Nordeste (Co.NE), coordenado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), encerrou o prazo de inscrições para o desafio tecnológico lançado pela Prefeitura de Montes Claros (MG) e registrou um volume expressivo: 38 propostas submetidas por startups, empresas de base tecnológica e núcleos de inovação de universidades. O número, considerado muito acima do esperado pelos organizadores, demonstra o amadurecimento do ecossistema de inovação regional e o apetite do setor privado por soluções desenhadas sob medida para o serviço público.

O desafio imposto pela gestão municipal é ambicioso e cirúrgico: reduzir drasticamente as filas de espera, os índices de falta de pacientes (as chamadas “faltas” ou no-shows) e o tempo de espera para duas especialidades críticas – consultas ortopédicas e exames de raio-X na rede pública de Montes Claros. A cidade, polo regional do Norte de Minas Gerais, atende não apenas seus próprios 400 mil habitantes, mas também uma vasta população de cidades vizinhas que depende do sistema municipal de saúde. Na prática, um gargalo que se arrasta há anos pode finalmente ganhar respostas tecnológicas: aplicativos de gestão de agendas com inteligência preditiva, sistemas de telemedicina para triagem ortopédica, plataformas de agendamento multicanal e algoritmos de otimização de fluxo de exames estão entre as soluções esperadas.

Como funciona o Co.NE

O programa não é um concurso de ideias soltas. Criado em parceria pela Sudene, a Escola Nacional de Administração Pública (Enap), o Banco do Nordeste (BNB), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a rede de impacto Impact Hub Brasil, o Co.NE estrutura um verdadeiro laboratório de compras públicas inovadoras. A metodologia aproxima poder público, universidades e empreendedores tecnológicos em ciclos colaborativos: primeiro identifica-se um problema concreto de uma cidade; depois, abre-se um desafio público para que startups apresentem soluções viáveis; por fim, as propostas selecionadas podem ser contratadas por meio do Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI), instrumento criado pelo Marco Legal das Startups (Lei Complementar 182/2021) que permite à administração pública testar e adquirir tecnologias ainda não disponíveis no mercado com muito mais flexibilidade e segurança jurídica.

No caso de Montes Claros, o investimento previsto exclusivamente para a etapa de desenvolvimento, validação e prototipagem da solução vencedora (ou das vencedoras) pode alcançar R$ 200 mil – valor que sai do orçamento municipal com apoio do BNB e da Sudene, mas que pode ser ampliado conforme a complexidade da solução. O CPSI, ao contrário das licitações tradicionais, permite contratar por até 36 meses incluindo fase de testes, sem exigir que o produto já esteja pronto e certificado. Isso abre a porta para startups de menor porte que, antes, eram excluídas das compras governamentais.

Ciclo piloto e próximas etapas

Montes Claros integra um grupo seleto de quatro cidades-piloto do Co.NE, ao lado de Fortaleza (CE), Feira de Santana (BA) e Mossoró (RN). Em Mossoró, as inscrições para o desafio local permanecem abertas até o dia 5 de junho, com foco em um problema ainda a ser detalhado – mas que também orbitará a área de serviços urbanos ou saúde. Já em Fortaleza e Feira de Santana, os editais serão lançados ao longo do segundo semestre de 2026, após estudos de diagnóstico realizados em parceria com as respectivas prefeituras.

A partir do dia 5 de junho, a Sudene divulgará a lista de finalistas pré-selecionados para a etapa de Montes Claros. Em seguida, ocorrerá uma fase de imersão e cocriação, na qual as startups selecionadas terão acesso a dados anonimizados da Secretaria Municipal de Saúde, entrevistas com gestores e profissionais da ponta (ortopedistas, técnicos de radiologia, recepcionistas de UBS) e mentorias especializadas. A banca final de avaliação, prevista para agosto, escolherá até três propostas que avançarão para a contratação via CPSI.

Sudene vê salto na cultura da inovação pública

Para a coordenadora do Co.NE e integrante da Coordenação de Planos, Projetos e Programas da Sudene, Paula Aragão, o número de 38 propostas não é apenas um dado quantitativo – é um sintoma de mudança estrutural. “O Co.NE contribui para ampliar a cultura de inovação no setor público e capacita servidores para o uso de instrumentos como o Contrato Público de Solução Inovadora (CPSI), tornando mais eficiente a aplicação dos recursos públicos”, afirmou. Ela acrescentou que, antes do programa, muitos gestores municipais sequer conheciam a existência do CPSI, e hoje a autarquia já é procurada por prefeituras interessadas em replicar o modelo.

A Sudene, que completa 67 anos em 2026, vem reposicionando suas ações históricas de desenvolvimento regional para incluir a economia do conhecimento e a inovação tecnológica como vetores de redução das desigualdades. O Co.NE está previsto para operar em ciclos contínuos até 2028, com ambição de alcançar dezenas de municípios da área de atuação da Autarquia – que abrange os nove estados do Nordeste mais o Norte de Minas Gerais e o Espírito Santo. A expectativa é que, ao final do programa, ao menos 30 soluções inovadoras tenham sido contratadas e implementadas em serviços públicos essenciais, gerando não só melhoria no atendimento ao cidadão, mas também um novo mercado regional para startups de impacto social.

O que está em jogo em Montes Claros

A escolha da cidade não foi aleatória. Montes Claros é o maior centro urbano do Norte de Minas, com uma rede de saúde municipal que atende cerca de 220 mil procedimentos ambulatoriais por mês – e um gargalo histórico na ortopedia: a espera média para uma consulta com especialista pode ultrapassar 180 dias em alguns períodos do ano; para exames de raio-X não emergenciais, o tempo médio de espera girava em torno de 45 dias no início de 2026, com filas de até dois meses. Além disso, o índice de faltas em consultas ortopédicas agendadas chegou a 28% em 2025, um desperdício gigantesco de recursos e de oportunidade de tratamento.

Uma das startups inscritas – que pediu para não ser identificada antes da pré-seleção – desenvolveu um algoritmo de machine learning capaz de prever, com até 85% de acurácia, quais pacientes têm maior probabilidade de faltar à consulta, permitindo acionar automaticamente uma lista de espera e reocupar o slot em até 24 horas. Outra proposta envolve um sistema de laudo remoto para raio-X com inteligência artificial que prioriza exames com achados críticos (como fraturas ocultas ou suspeita de tumores ósseos). “A ideia não é substituir o médico, mas desafogar o radiologista para que ele foque no que realmente exige experiência humana”, explicou o CEO da startup, em conversa por videoconferência.