Hospital Universitário Clemente de Faria promove ações educativas, autoexame e diagnóstico precoce
Durante todo o mês de maio, o Hospital Universitário Clemente de Faria (HUCF), instituição pública vinculada à Universidade Estadual de Unimontes mobilizou pacientes, acompanhantes, profissionais de saúde e estudantes em torno de uma causa silenciosa, mas com altas taxas de mortalidade quando descoberta tardiamente: o câncer de boca. A campanha “Maio Vermelho 2026”, realizada sob coordenação do Núcleo de Qualidade em Saúde Bucal (NQSB), trouxe para o cotidiano do maior hospital do Norte de Minas uma série de estratégias educativas, assistenciais e de promoção da saúde – todas alinhadas ao compromisso da unidade com o atendimento integral pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e com a humanização do cuidado.
O HUCF é referência regional para uma população estimada em mais de 1,5 milhão de habitantes, abrangendo dezenas de municípios do Norte de Minas e parte do Vale do Jequitinhonha. Nesse contexto, a campanha transcendeu o caráter simbólico: tornou-se um vetor de conscientização em massa sobre um tipo de neoplasia que, no Brasil, ainda é diagnosticada tardiamente em mais de 60% dos casos, reduzindo drasticamente as chances de cura. Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que o câncer de boca ocupa o quinto lugar entre os tumores mais incidentes em homens na região Sudeste – e o Norte de Minas apresenta índices históricos de consumo de tabaco e álcool, dois principais fatores de risco.
Núcleo de Qualidade em Saúde Bucal: pioneirismo interno
O grande diferencial da campanha deste ano foi o protagonismo do Núcleo de Qualidade em Saúde Bucal (NQSB), implantado no HUCF em 2022 pela cirurgiã-dentista Zélia Martins Pereira – que até hoje lidera a iniciativa. O NQSB consolidou um modelo inédito na região: a atuação interdisciplinar e contínua da odontologia hospitalar, rompendo com a visão antiga de que o dentista só atua em consultório ou em procedimentos eletivos. Hoje, o núcleo funciona em regime de plantão presencial 24 horas (em escala), com equipe formada por dentistas, técnicos em saúde bucal (TSB), residentes multiprofissionais (saúde do idoso, oncologia, cuidados paliativos) e acadêmicos de odontologia da Unimontes em estágio supervisionado.
O que a campanha Maio Vermelho 2026 realizou no HUCF
Ao longo de maio, a campanha organizou três frentes de atuação:
• Roda de conversa com pacientes e acompanhantes – Diariamente, nas enfermarias de clínica médica, oncologia e cirurgia, os técnicos e residentes abordaram sinais de alerta: feridas na boca que não cicatrizam por mais de 15 dias, manchas esbranquiçadas (leucoplasia) ou avermelhadas (eritroplasia), sangramentos sem causa aparente, dormência na língua, dificuldade para mastigar, engolir ou falar. Houve distribuição de espelhos bucais descartáveis para que os próprios pacientes aprendessem a fazer o autoexame, com demonstração prática.
• Triagem de lesões suspeitas – Em parceria com o ambulatório de odontologia do HUCF, foram realizadas 87 avaliações bucais direcionadas a pacientes internados que relataram algum sintoma persistente. Dois casos com suspeita clínica de neoplasia foram encaminhados para biópsia e agendamento prioritário no setor de estomatologia; os demais receberam orientação sobre higiene oral e acompanhamento pós-alta.
• Capacitação de profissionais da equipe multiprofissional – O NQSB ministrou três workshops para enfermeiros, técnicos de enfermagem, nutricionistas e fisioterapeutas sobre como incorporar o exame da cavidade bucal na rotina da admissão hospitalar. “Muitas vezes o câncer de boca é encontrado por acaso, durante a higiene oral de um paciente sedado. Treinamos a equipe para olhar intencionalmente”, detalha a cirurgiã-dentista Karen Fernanda Gomes, odontopediatra e residente em Saúde do Idoso, que conduziu as atividades práticas.
Fatores de risco: tabaco, álcool e falta de dentista
Uma das ênfases da campanha foi a abordagem direta sobre os fatores de risco modificáveis. O tabagismo – seja cigarro, cachimbo ou narguilé – é responsável por cerca de 70% dos casos de câncer de boca no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O consumo excessivo de álcool, quando combinado ao tabaco, multiplica o risco em até 15 vezes. A exposição solar sem proteção nos lábios (comum entre trabalhadores rurais do Norte de Minas) também foi lembrada como fator relevante.
Integração ensino-serviço e o programa Valora Minas
Um aspecto central da atuação do HUCF é a indissociabilidade entre ensino, assistência e extensão. O hospital é campo de prática para nove residências multiprofissionais (entre elas, saúde do idoso, oncologia, urgência e emergência) e para os cursos de graduação em medicina, enfermagem, nutrição e odontologia da Unimontes. A campanha Maio Vermelho foi planejada e executada por residentes e preceptores, com supervisão do NQSB, gerando produção de material educativo (folders, vídeos curtos para redes sociais internas, cartazes) e um relatório técnico que será apresentado ao programa Valora Minas – política estadual de qualificação assistencial e humanização dos hospitais do SUS.
Cenário epidemiológico e importância do diagnóstico precoce
O câncer de boca tem alta capacidade de cura quando detectado precocemente – acima de 90% dos casos em estágio I e II. No entanto, no Brasil, o diagnóstico ainda é predominantemente tardio. Segundo dados do Inca, a taxa de mortalidade ajustada por idade para tumores de cavidade oral no país é de cerca de 3,5 óbitos por 100 mil homens, com picos nas regiões Sul e Sudeste. Em Montes Claros, o hospital universitário registra, em média, 25 novos casos por ano apenas na sua área de abrangência direta – número subnotificado, pois muitos pacientes buscam outros serviços.



