Curso de formação da GCM recebe orientações sobre acolhimento humanizado e prevenção ao suicídio em parceria com o 2º Pelotão de Bombeiros de Pirapora
A noite da última segunda-feira (25 de maio de 2026) foi marcada por um encontro que, embora silencioso em seus detalhes mais íntimos, reverbera como um dos pilares da segurança pública humanizada no Norte de Minas Gerais. No Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento em Segurança Pública (CETASP) da Guarda Civil Municipal de Pirapora, servidores da corporação e alunos do Curso de Formação da GCM sentaram-se lado a lado com militares do Corpo de Bombeiros. O objetivo não era ensinar tiro, contenção ou uso progressivo da força, mas sim algo potencialmente mais desafiador: como abordar uma pessoa que já não enxerga saída na própria vida.
A palestra, fruto da parceria institucional entre a GCM e o 2º Pelotão de Bombeiros Militar de Pirapora, teve como foco principal o atendimento a vítimas em situação de crise emocional, com ênfase na prevenção ao suicídio. Durante quase três horas de exposição interativa, os palestrantes — dois sargentos do Corpo de Bombeiros com experiência em ocorrências de alto risco psicológico — compartilharam protocolos, estudos de caso e técnicas de comunicação que podem fazer a diferença entre a tragédia e a reabilitação.
“Muitas vezes o guarda municipal chega primeiro. É a primeira voz que a pessoa em sofrimento vai ouvir. Se essa voz for autoritária ou indiferente, o abismo se aprofunda. Mas se for acolhedora, há uma chance real de construir uma ponte”, explicou o sargento Márcio Tadeu, um dos instrutores, ao final do encontro. Ele destacou que, em 2025, o pelotão de Pirapora atendeu 47 ocorrências envolvendo tentativas de autoextermínio ou ideação suicida — um número que, segundo ele, representa apenas a ponta do iceberg, já que muitos casos não são reportados.
Sinais de alerta e escuta ativa
A capacitação abordou temas que extrapolam o senso comum. Os participantes aprenderam a identificar sinais de alerta comportamentais — isolamento súbito, doação de objetos pessoais, alterações bruscas de humor — e também a diferenciar uma crise aguda de um quadro crônico de sofrimento psíquico. O destaque da noite ficou por conta da simulação prática: três alunos voluntários desempenharam o papel de “vítimas” em cenários diversos, como um adolescente em cima de uma ponte, uma senhora em surto dentro de casa e um motociclista que havia acabado de perder o emprego e ameaçava se jogar do viaduto.
Integração institucional como estratégia
A parceria entre a Guarda Civil Municipal e o Corpo de Bombeiros não é nova em Pirapora, mas a iniciativa desta semana representa uma ampliação qualitativa do diálogo entre as corporações. De acordo com o comandante da GCM, inspetor geral Paulo Henrique Lemos, a ideia é incorporar o módulo de “emergências emocionais” como disciplina obrigatória no CETASP a partir do próximo semestre.
O Corpo de Bombeiros, por sua vez, vê na capacitação mútua uma forma de otimizar recursos. O tenente Rodrigo Figueiredo, comandante do 2º Pelotão, explicou que, em ocorrências de alto risco emocional, o tempo de resposta é fator crítico. “Se o guarda que chega primeiro já consegue estabelecer um vínculo de confiança e acionar corretamente a rede de apoio, o desfecho tende a ser muito mais positivo. Nós, bombeiros, chegamos depois para complementar, mas o primeiro contato é decisivo.”
Dados alarmantes e a importância da prevenção
Segundo dados do Ministério da Saúde compilados pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, a microrregião de Pirapora registrou, entre janeiro e dezembro de 2025, 12 óbitos por suicídio confirmados — o maior número dos últimos cinco anos. Embora o dado absoluto pareça pequeno em comparação com grandes centros urbanos, o coeficiente de mortalidade por 100 mil habitantes coloca a região em situação de alerta, especialmente entre jovens de 18 a 29 anos e idosos acima de 65.
Em resposta, a GCM lançou, no início de 2026, o programa “Guardião da Escuta”, que já capacitou 35 agentes em primeiros socorros psicológicos. A palestra desta segunda-feira foi a primeira atividade conjunta com os bombeiros dentro do programa. A expectativa é de que, até o final do ano, todos os 102 guardas municipais de Pirapora tenham passado pelo treinamento, que será estendido também a agentes de trânsito e fiscais de posturas.
Rede de apoio e número de emergência
Durante o evento, foi reforçado o papel do Centro de Valorização da Vida (CVV), que atende 24 horas por dia, todos os dias, pelo telefone 188. O serviço é gratuito, sigiloso e não exige identificação. Além do CVV, os palestrantes orientaram os guardas a manter em seus celulares institucionais os contatos do CAPS Pirapora (33 99912-3456 – plantão psicológico) e do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) para encaminhamentos rápidos.
Próximos passos
O CETASP já anunciou que, no dia 15 de junho, será realizada uma nova edição do encontro, desta vez aberta também a policiais militares do 49º Batalhão e a agentes da Polícia Civil. Enquanto isso, os alunos do Curso de Formação da GCM continuarão com suas aulas práticas de abordagem, mas agora carregam um aprendizado extra: o de que a maior arma que um guarda pode ostentar, em certas situações, é o silêncio respeitoso de quem escuta.
A capacitação encerrou com uma frase que será fixada no mural da GCM: “Valorizar a vida começa por enxergar a dor do outro sem medo de se emocionar.” Os participantes receberam certificados de conclusão do módulo básico em prevenção ao suicídio, e os instrutores do Corpo de Bombeiros se comprometeram a retornar a cada semestre para reciclagem.
A Guarda Civil Municipal de Pirapora orienta a população que, em caso de emergência emocional ou suspeita de risco iminente de suicídio, deve acionar imediatamente o 190 (Polícia Militar) ou o 193 (Corpo de Bombeiros), além do CVV pelo 188. Nunca ignore uma pessoa que manifesta desejo de morrer — o acolhimento pode ser o primeiro passo de volta à vida.



