Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Há muitos anos, em um aeroporto, enquanto aguardava um embarque, vi um livro pequeno com um trevo de quatro folhas na capa. O título era simples: A Boa Sorte.
Comprei.
Comecei a ler ainda no aeroporto.
Continuei no avião.
Na conexão.
No segundo voo.
E, quando cheguei em casa, não consegui largar até terminar.
No fim do livro havia uma frase dizendo:
“Este livro não chega às suas mãos por acaso.”
Nunca esqueci disso.
Com o tempo, usei o livro em treinamentos, dei exemplares de presente, emprestei para amigos. Em alguns momentos achei até que ele tivesse desaparecido definitivamente. Curiosamente, anos depois, ele voltou para mim. Depois sumiu outra vez.
Mas minhas anotações ficaram.
E talvez exista algo importante nisso:
o que a gente captura de verdade numa leitura ninguém consegue subtrair completamente, principalmente quando registramos.
Recentemente reli minhas anotações e parei justamente na conversa entre dois personagens diante da Sequóia, a árvore mais antiga do bosque.
Enquanto um perguntava:
“É verdade que nunca nasceu um trevo de quatro folhas aqui?”,
o outro perguntava:
“Quanto de sol o trevo precisa para nascer?”
Achei essa diferença profundamente humana.
Tem conversas que fecham.
E tem conversas que abrem.
Algumas pessoas entram em um diálogo procurando confirmação para a impossibilidade.
Outras procuram condições para que algo aconteça.
Na sequência da história, a árvore explica que ali havia sombra demais. Então surge outra pergunta:
“Você me dá autorização para podar os galhos secos?”
E a resposta vem de forma curiosa:
“Você não precisa da minha autorização. A árvore que receber essa atenção ficará encantada.”
Foi impossível não pensar no quanto a comunicação revela também nossas formas de existir dentro dos relacionamentos.
Existe o “não” que interrompe:
“não adianta”,
“nunca muda”,
“não tem jeito”.
Mas existe também o “não” que acolhe e direciona:
“você não precisa pedir permissão para cuidar”.
Talvez seja por isso que algumas conversas cansam tanto.
Porque produzem sombra.
E talvez seja por isso que outras permanecem dentro da gente durante anos.
Porque deixam entrar luz.
Nestes dias, olhando um pequeno vaso aqui em casa, vi surgir uma pontinha verde numa planta que parecia não resistir mais. Troquei a terra, mudei o lugar, dei atenção.
E pensei:
talvez muitos relacionamentos também sejam assim.
Nem sempre conseguimos curar.
Mas cuidar…
quase sempre ainda é possível.



