Adelaide Valle Pires
Autora
Março chegou e com ele um tempo que encerra e inaugura ao mesmo tempo.
“São as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no meu coração.”
Na minha casa, março é cheio de datas. Há aniversários, celebrações, encontros. Mas há também um dia de silêncio. E foi convivendo com essas dualidades que aprendi a olhar o tempo de outra forma.
No meu livro, uso a árvore como metáfora da vida.
A raiz é o comprimento — do nascer ao morrer.
Muitos medem pela quantidade de anos. Eu aprendi a olhar a qualidade. Há convivências breves que sustentam uma existência inteira.
O tronco é a largura — nossos relacionamentos, o presente sustentado por comunicação, confiança e comprometimento.
E a copa é a altura — o futuro, os sonhos, o legado que deixamos.
Mas raiz não é apenas passado.
É memória.
E memória não é só lembrança. Lembrança é individual.
Memória é partilha.
A lembrança é minha. A memória eu compartilho com quem se identifica.
A memória histórica que desejo construir não é um depósito de nomes e datas. É um saber com sentido, carregado de símbolos e possibilidades. É a força que conserva, que atualiza, que sopra vida no que passou.
Tradição não é repetição automática.
É costura de saberes entre gerações — pelo gesto, pelo hábito, pelo cotidiano.
Março me lembra que antes de florescer é preciso enraizar.
Que a flor que brota não esquece o solo que a sustenta.
Talvez essa seja a verdadeira medida do tempo:
não o quanto dura,
mas o quanto permanece.


