Thiago Maia revela números exatos do passivo do clube, explica destino dos novos aportes da família Menin e projeta cenário desafiador para as contas do Galo nos próximos anos.
Em uma revelação que expôs a delicada situação financeira de um dos maiores clubes do futebol brasileiro, o diretor financeiro do Atlético Mineiro, Thiago Maia, detalhou com números absolutos a dimensão da dívida que assombra os cofres alvinegros. De acordo com o executivo, o passivo total do clube alcança a impressionante marca de R$ 1,7 bilhão – um valor que, segundo sua própria avaliação, torna-se “organicamente quase impagável”. A declaração, feita durante uma reunião ampliada com conselheiros e membros do departamento de futebol, foi obtida com exclusividade e repercutiu fortemente nos bastidores do futebol mineiro e nacional.
A fala de Thiago Maia não foi um mero exercício de alarmismo, mas sim um diagnóstico técnico embasado em projeções atuariais e fluxos de caixa. O diretor explicou que, considerando apenas as receitas operacionais do clube – bilheteria, sócio-torcedor, premiações, direitos de transmissão e venda de atletas –, a geração de caixa anual não é suficiente sequer para cobrir os juros da dívida total, quanto mais o principal. “Não se trata de pessimismo, trata-se de matemática. Com o que o Atlético arrecada hoje, sem aportes extraordinários, o pagamento desse montante levaria décadas e comprometeria qualquer planejamento esportivo minimamente competitivo”, teria afirmado o diretor durante a apresentação.
A estrutura da dívida: bancos, empréstimos e ela
Embora o valor de R$ 1,7 bilhão pareça monolítico à primeira vista, Thiago Maia detalhou que o passivo se divide em diferentes naturezas. A parcela mais crítica, segundo ele, é aquela contraída junto a instituições bancárias – incluindo a dívida decorrente da construção da Arena MRV, o estádio próprio do clube inaugurado em 2023 com grande pompa e que se tornou símbolo da nova era do Galo.
“A dívida bancária é a mais urgente. Ela tem juros contratuais, tem prazos, tem garantias. São bancos. Eles não esperam. Por isso que os novos aportes que estão sendo discutidos terão como destino exclusivo o abatimento desses passivos bancários”, explicou o diretor. Outras fatias da dívida incluem compromissos com credores diversos (fornecedores, empresários de atletas) e parcelamentos fiscais, mas a prioridade declarada é reduzir a exposição ao sistema financeiro, que hoje consome uma fatia desproporcional do orçamento anual do clube apenas no pagamento de juros e amortizações.
Thiago Maia evitou usar termos técnicos como “insolvência” ou “default”, mas deixou claro que o cenário atual é insustentável a médio prazo caso medidas drásticas não sejam tomadas. “Organicamente é quase impagável”, repetiu, para enfatizar a gravidade. A expressão foi imediatamente assimilada por conselheiros presentes, muitos dos quais saíram da reunião visivelmente preocupados com o futuro financeiro do clube.
A família Menin como ancora: aportes com destino certo
O grande alívio no horizonte conturbado do Atlético continua sendo a família Menin, proprietária da MRV Engenharia e sócia majoritária da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) alvinegra. Os Menin já haviam injetado centenas de milhões de reais no clube desde a conversão em SAF, em 2022, e agora se preparam para realizar novos aportes bilionários. No entanto, Thiago Maia foi incisivo ao estabelecer uma condição que, segundo ele, é inegociável: o dinheiro novo não será destinado à contratação de jogadores, ao aumento da folha salarial ou a qualquer despesa de custeio. A totalidade dos recursos será usada para abater a dívida bancária.
“Temos que ser absolutamente claros com a torcida, com a imprensa e com o mercado. Esse novo aporte não é para comprar jogador. Não é para pagar luvas. Não é para dar bicho. É para reduzir o passivo. Para fazer o Atlético respirar. Para que, no futuro, possamos investir sem que 40% da nossa receita vire pó no pagamento de juros”, afirmou o diretor. A estratégia, embora pouco vistosa e distante do imaginário da torcida – que naturalmente deseja ver reforços de peso –, é defendida pelos gestores como o único caminho viável para a saúde financeira de longo prazo.
Os valores exatos dos novos aportes ainda não foram oficialmente divulgados, mas fontes ligadas ao clube dão conta de que a família Menin se comprometeu a injetar entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões ainda no decorrer de 2026, com possibilidade de novas parcelas em 2027. Em troca, os investidores manterão o controle acionário da SAF e terão garantias de que o dinheiro será aplicado estritamente conforme o planejado.
O contraponto: investimento esportivo x saúde financeira
A declaração de Thiago Maia coloca em xeque a política de investimentos em futebol que o Atlético praticou nos últimos anos. Desde a chegada da SAF, o clube se acostumou a contratar jogadores de renome, muitos deles com salários elevados e longos contratos. Nomes como Hulk (renovado em condições vultosas), Bernard, Paulinho, entre outros, foram celebrados pela torcida, mas também elevaram a folha a patamares próximos de R$ 20 milhões mensais – algo que a arrecadação ordinária do clube, mesmo com a Arena MRV em plena operação, não consegue sustentar de forma equilibrada.
Agora, o discurso oficial é de austeridade. O diretor financeiro deixou claro que, enquanto a dívida bancária não for reduzida a patamares manejáveis (abaixo de R$ 500 milhões, segundo projeções internas), não haverá espaço para grandes negociações no mercado. “Podemos sonhar com contratações. Mas primeiro temos que acordar para a realidade. A realidade hoje é uma dívida de 1,7 bilhão. Isso é maior que o faturamento anual de muitos clubes da Série A. Não dá para fingir que não está acontecendo”, concluiu Thiago Maia.
Relações e próximos passos
Nos próximos dias, está prevista uma nova assembleia de acionistas para oficializar os aportes da família Menin e aprovar o plano de reestruturação da dívida. Paralelamente, o clube negocia com bancos credores a possibilidade de trocar parte da dívida de curto prazo por prazos mais alongados, com carência e juros reduzidos. Será um teste de fogo para a nova governança do Atlético – e para a paciência de uma torcida que, além de títulos, cobra responsabilidade financeira. O recado de Thiago Maia foi duro, mas necessário: a era dos gastos sem lastro parece ter ficado para trás. Agora, o Galo joga para não ficar no vermelho.



