MOTIVO, OLHAR E ESCOLHAS - Rede Gazeta de Comunicação

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MOTIVO, OLHAR E ESCOLHAS

Adelaide Valle Pires

Autora

Terminei de assistir Pinóquio pensando na linha tênue entre verdade e mentira — entre aquilo que é contado em números e aquilo que só pode ser compreendido pelos motivos.

Quando o mocinho diz à repórter: “eu não pedi estatísticas, eu pedi motivos”, tico e teco entraram em uma dança frenética, e foi como se a partitura me levasse à sinfonia de que a estatística responde à cabeça enquanto o motivo conversa com o coração.

Enquanto a estatística define quem foi o culpado, o motivo revela por que as pessoas foram quebradas por dentro. E então ficou uma pergunta que não saiu daqui: o que machuca mais — o fato em si ou a história que se conta sobre ele?

Surgiu também uma vontade de dialogar mais com os fatos, divertir-se mais com as descobertas e ir desenvolvendo a sensibilidade para perceber que nem toda verdade cabe em números.

E foi aí que meu lado de recrutadora despertou ao ver a cena do teste prático para seleção de repórteres. A mesma situação, as mesmas imagens, as câmeras ligadas… e cinco narrativas diferentes nasceram dali. Alguns disseram apenas o que viram. Outros acrescentaram o que sentiram. Houve quem tentasse traduzir o que o outro precisava escutar.

E, no final, ficaram os questionamentos: comunicar é uma escolha entre verdade ou invenção, ou perceber que toda palavra carrega um olhar? Falar a verdade… ou falar de um jeito que o outro consiga receber? Relatar exatamente o que se vê ou construir a versão que mais prende atenção?

Continuando com o pensamento em escolhas, uma frase dita chamou atenção: “o processo de escolha funciona assim: quando se escolhe um, abandona-se o outro”. Como se a vida fosse sempre uma bifurcação — esquerda ou direita. Como se o indivíduo fosse simples assim, um ser binário.

Fiquei pensando nisso: será que toda escolha exige perda… ou algumas escolhas apenas mudam a forma como olhamos para o caminho? E se escolher nem sempre for abandonar? E se, em alguns momentos, escolher for permitir que duas verdades conversem até que uma terceira possibilidade apareça — mais consciente, mais inteira?

Finalmente percebi que não é a cena que muda — é a forma como cada olhar organiza o que será dito. Mas uma pergunta ficou em aberto: quando a intenção é comunicar de verdade, o que pesa mais — a fidelidade ao fato ou a ponte criada para que o outro possa escutar?