Evento no IFNMG-Campus Arinos reunirá agricultores familiares, comunidades tradicionais e instituições públicas para promover a troca de sementes, a conservação da agrobiodiversidade e o intercâmbio de conhecimentos ancestrais
O Cerrado mineiro, berço de uma das maiores biodiversidades do planeta, será palco, no próximo dia 18 de junho, de um evento que celebra a vida, a resistência e a sabedoria das populações que, há gerações, conservam as sementes que alimentam o Brasil. O Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) – Campus Arinos, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e organizações territoriais, realizará a 1ª Feira de Troca de Sementes Crioulas do Noroeste Mineiro, um encontro histórico que reunirá agricultores familiares, comunidades tradicionais, instituições públicas e autoridades no Coreto Municipal de Arinos.
A iniciativa, que integra a programação da XV Semana do Meio Ambiente do IFNMG – Campus Arinos, representa um marco para a região Noroeste de Minas Gerais. Pela primeira vez, agricultores assentados da reforma agrária, quilombolas, povos tradicionais, guardiões e guardiãs de sementes, estudantes, pesquisadores, extensionistas e gestores públicos se encontrarão em um mesmo espaço para trocar não apenas variedades de sementes, mas também histórias, conhecimentos e experiências que vêm sendo transmitidas de geração em geração. A presença confirmada de autoridades do MDA, do INCRA e da CONAB reforça a relevância institucional do evento e o compromisso do poder público com o desenvolvimento rural sustentável e a valorização dos territórios tradicionais.
As sementes crioulas, também conhecidas como sementes tradicionais, são muito mais do que simples insumos agrícolas. Elas representam um patrimônio biológico, cultural e histórico das comunidades rurais brasileiras. Conservadas por famílias agricultoras, povos indígenas e comunidades tradicionais ao longo de décadas e até séculos, essas variedades foram selecionadas naturalmente por sua adaptação às condições locais de clima e solo, pela resistência a pragas e doenças e por sua importância para a alimentação e a soberania das comunidades. Diferentemente das sementes comerciais, híbridas ou transgênicas, que dependem de pacotes tecnológicos e insumos químicos, as sementes crioulas são fruto de um processo de coevolução entre o ser humano e a natureza, carregando em si a memória de um modo de produção que respeita os ciclos da terra e a diversidade dos ecossistemas.
A feira, que se insere em um contexto mais amplo de luta pela soberania alimentar e pela conservação da agrobiodiversidade, surge como uma resposta à expansão da agricultura moderna no Cerrado, que, a partir da década de 1960, impôs um modelo baseado em monoculturas, fertilizantes químicos, agrotóxicos e sementes híbridas. Esse modelo, embora tenha aumentado a produtividade em larga escala, promoveu processos de erosão genética, degradação ambiental e expropriação de comunidades tradicionais. Em contraposição, as iniciativas de conservação de sementes crioulas representam uma resistência ativa, uma aposta em um futuro no qual a agricultura seja diversa, resiliente e esteja a serviço da vida, e não do capital.
A dinâmica da feira foi cuidadosamente planejada para estimular a troca solidária e o intercâmbio de conhecimentos. Os participantes poderão levar suas variedades de sementes crioulas, mudas, estacas, ramas de mandioca, tubérculos, plantas medicinais e outras espécies conservadas por suas famílias e comunidades. Ao chegar ao evento, os materiais serão apresentados, expostos e organizados na Mesa de Troca de Sementes, um espaço de encontro onde agricultores e agricultoras poderão compartilhar informações sobre a origem, os usos, as formas de conservação e os métodos de plantio de cada variedade.
A ideia central é que cada semente chegue acompanhada de sua história: de onde veio, como é cultivada, para que serve, como se adapta ao território e quais cuidados exige. Dessa forma, a troca fortalece tanto a diversidade das roças quanto o conhecimento comunitário associado às sementes.
A programação do evento é extensa e diversificada, refletindo a pluralidade de saberes e práticas que envolvem a conservação das sementes crioulas. A abertura, às 7h, contará com um café da manhã de recepção, seguido pela integração com a XV Semana do Meio Ambiente do IFNMG. A mesa de abertura, às 9h30, reunirá autoridades do MDA, INCRA, CONAB, IFNMG, prefeituras municipais e instituições parceiras, marcando o início oficial das atividades. O momento central da feira, a Troca de Sementes Crioulas, está previsto para as 11h, seguido por visitas técnicas a experiências produtivas e ações de extensão rural.
A tarde reserva uma rica programação formativa e cultural, com minicursos, rodas de conversa e palestras que abordarão temas como o papel das sementes crioulas na segurança alimentar, as experiências de conservação em diferentes territórios do Noroeste Mineiro e os desafios para a construção de sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.
Entre as atividades previstas, destaca-se a oficina “Bordando o Amanhã: Memórias, Sementes e Tradição”, com Ladyjane Macedo, da Comunidade Tradicional do Ribeirão de Areia, e a roda de conversa “Sementes Crioulas e Sertões Gerais: Territórios Vivos, Povos Soberanos”, com Gabriel Valadão, Luana Botelho, Edilene Amaro e Jaime Veredeiro. As atividades culturais, como o Sarau Sertanejo e as apresentações de danças tradicionais, encerrarão o evento com uma celebração dos saberes, cantos e memórias do sertão mineiro.
A expectativa é que a feira reúna participantes de diferentes territórios do Noroeste Mineiro, como o Vale do Urucuia, o Grande Sertão Veredas, os Sertões Gerais e a região dos Pandeiros, consolidando um espaço de diálogo entre agricultores, instituições públicas, universidades, movimentos sociais e organizações comunitárias. A iniciativa conta com a execução territorial e a mobilização comunitária de organizações como o CRESERTÃO, a COPABASE, o NEA Arinos, a ACEVER e o MCP, que atuam na articulação das comunidades rurais, na mobilização dos agricultores e agricultoras e no fortalecimento das redes de guardiões e guardiãs de sementes.
A parceria entre o IFNMG e o MDA, por meio de Termo de Execução Descentralizada (TED), com o Laboratório de Gestão e Políticas Públicas em Extensão Rural (LEME/UFRN) e a Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do Rio Grande do Norte (FUNCERN), evidencia a importância da articulação entre diferentes esferas do poder público e da academia para a promoção do desenvolvimento rural sustentável. Ao reunir conhecimento científico, extensão rural e saberes tradicionais, a feira se coloca como um espaço de construção coletiva de políticas, ações e estratégias para o fortalecimento da agricultura familiar e da conservação da agrobiodiversidade no Cerrado mineiro.
Mais do que um evento técnico, a 1ª Feira de Troca de Sementes Crioulas do Noroeste Mineiro é uma celebração da riqueza biológica e cultural do Cerrado, um reconhecimento do papel fundamental dos agricultores e agricultoras que, geração após geração, mantêm vivas as sementes que alimentam comunidades e preservam a diversidade dos territórios. É um encontro que une passado e futuro, tradição e inovação, conhecimento científico e sabedoria popular em torno de um objetivo comum: garantir que as sementes crioulas continuem a germinar, a se multiplicar e a alimentar a vida por muitas e muitas gerações.



