Projeto Sementeiras alcança 10 municípios em quatro estados e chega em junho a Minas Gerais, com destaque para o Norte do estado
A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) anunciou nesta terça-feira (26) um aporte de R$ 2,6 milhões para expandir o cultivo de palma forrageira no Semiárido brasileiro. Por meio do projeto Sementeiras, vinculado ao programa Inova Palma, a autarquia federal pretende implantar 18 áreas de multiplicação da cultura em sete estados da sua área de atuação, beneficiando diretamente pequenos e médios produtores rurais que enfrentam os rigorosos períodos de estiagem característicos da região.
A iniciativa representa mais do que um simples aumento de área plantada. Ela cria uma rede regional de produção e distribuição de mudas geneticamente selecionadas, garantindo que os agricultores tenham acesso a material de plantio de qualidade, com maior capacidade de resistência a pragas e adaptação a solos pobres e clima árido. A variedade escolhida pelos técnicos é a conhecida como “Orelha de Elefante Mexicana” (Opuntia stricta), que demonstrou, em testes de campo, alta resiliência à cochonilha-do-carmim (Dactylopius opuntiae), praga que devastou plantações inteiras no Semiárido na última década e comprometeu a alimentação de milhões de cabeças de gado.
Etapas já consolidadas e próximos passos
De acordo com o cronograma divulgado pela Sudene, o plantio já foi concluído ou está em andamento em 10 municípios distribuídos por quatro estados nordestinos. No Ceará, as cidades contempladas são Quixeramobim e Iguatu, ambas reconhecidas como polos pecuários tradicionais. No Rio Grande do Norte, os municípios de Apodi, São José do Seridó e Equador receberam as mudas. Na Paraíba, foram incluídos Congo e São João do Tigre. Já em Alagoas, as áreas de multiplicação estão em Cacimbinhas e Belo Monte.
Cada unidade implantada ocupa 0,75 hectare e funciona como um “banco de mudas” comunitário. A lógica é descentralizada: em vez de depender de grandes viveiros distantes, o produtor pode obter mudas certificadas em sua própria região, reduzindo custos de transporte e aumentando as chances de pegamento da cultura. A previsão é que cada hectare bem manejado produza de 40 a 60 toneladas de matéria seca por ano — volume suficiente para alimentar de 8 a 12 animais durante todo o período seco.
Norte de Minas Gerais entra no mapa da palma em junho
A próxima fase do projeto, prevista para começar em junho de 2026, trará o Semiárido mineiro para o centro das ações. Sergipe e Minas Gerais serão os próximos estados a receber as áreas de multiplicação. No território mineiro, o foco recai sobre a região Norte — uma das mais carentes do estado em termos de índices pluviométricos e infraestrutura hídrica.
Cidades como Januária, São Francisco, Manga e Jaíba, tradicionalmente castigadas pela seca, estão entre as candidatas a sediar as unidades, embora o edital final com os municípios exatos ainda esteja em fase de ajustes com o governo estadual e as prefeituras locais. A escolha do Norte de Minas não é aleatória: a região possui o maior rebanho caprino e ovino do estado, além de expressiva criação de gado leiteiro de pequeno porte. Durante as longas estiagens, que podem durar até oito meses por ano, a falta de forragem é a principal causa de mortandade animal e de endividamento dos pequenos pecuaristas.
“A palma forrageira é uma das poucas culturas que mantêm alta produtividade mesmo com menos de 400 milímetros de chuva por ano. Para o Norte de Minas, que enfrenta esse problema crônico, o projeto representa uma verdadeira revolução silenciosa”, afirmou o coordenador-geral de Inovação e Transformação Digital da Sudene, Aildo Sabino, responsável pelo programa Inova Palma. “Nosso trabalho envolve desde a escolha das áreas — considerando solo, topografia e logística — até o manejo correto, a distribuição das mudas e capacitações práticas no campo. Isso amplia a produtividade e reduz riscos para quem depende exclusivamente da atividade para sobreviver.”
Capacitação e assistência técnica
Diferentemente de projetos anteriores que se limitavam à doção de mudas sem acompanhamento, o Sementeiras prevê um plano robusto de formação de agricultores. Técnicos do Instituto Nacional do Semiárido (INSA), parceiro executivo da iniciativa, realizarão visitas periódicas a cada área de multiplicação, orientando sobre plantio em nível, adubação orgânica, controle natural de pragas e colheita escalonada — técnica que evita o desperdício e garante alimento fresco por mais meses.
Além disso, serão promovidas dias de campo e oficinas práticas para produtores vizinhos, espalhando o conhecimento para além das 18 unidades originais. A meta é que, em dois anos, o projeto tenha capacitado pelo menos 500 famílias agricultoras, gerando um efeito multiplicador capaz de transformar a realidade da pecuária familiar no Semiárido.
Impactos econômicos e sociais esperados
Os R$ 2,6 milhões investidos pela Sudene serão aplicados na aquisição de mudas matrizes, insumos, cercas, sistemas de captação de água da chuva (como barreiros e cisternas) e no pagamento de bolsas para assistência técnica. O retorno esperado, segundo estimativas do órgão, é de uma redução de até 40% nos custos com alimentação animal durante a seca — atualmente, muitos produtores são forçados a comprar farelo e silagem a preços abusivos de atravessadores.
Do ponto de vista social, o projeto contribui para fixar o homem no campo. A pecuária familiar no Semiárido enfrenta uma sangria constante de jovens que migram para centros urbanos em busca de trabalho, desestimulados pela falta de perspectivas. Uma cultura resiliente como a palma, que exige manejo contínuo mas oferece retorno garantido, pode ajudar a reverter esse quadro.
“A palma não é só comida para o animal. É segurança alimentar indireta para a família, é renda na venda do excedente, é estabilidade num ambiente hostil”, resumiu Aildo Sabino.
Parcerias institucionais e próximos passos em Pernambuco
O projeto Sementeiras é executado pelo INSA em parceria com governos estaduais, prefeituras municipais, sindicatos rurais e cooperativas de agricultores familiares. Em Pernambuco, o cronograma ainda está sendo definido, mas a Sudene adiantou que o estado deverá receber áreas de multiplicação no Sertão do São Francisco e no Pajeú, regiões com alta concentração de pequenos criadores.
A reportagem tentou contato com a Secretaria de Agricultura de Minas Gerais para obter detalhes sobre os municípios do Norte do estado que serão priorizados, mas não obteve resposta até a publicação. O INSA informou, por meio de sua assessoria, que os critérios técnicos finais estarão disponíveis no site da Sudene a partir da primeira semana de junho.
Com a ampliação do cultivo de palma forrageira — uma tecnologia social de baixo custo e alto impacto — a Sudene aposta na convivência com o Semiárido, abandonando velhas narrativas de combate à seca e adotando estratégias de adaptação produtiva. Para o Norte de Minas Gerais, historicamente esquecido nos grandes planos nacionais de desenvolvimento, o projeto chega como uma rara oportunidade de respirar num ambiente de escassez.



