Energia solar, infraestrutura de transmissão, disponibilidade territorial e acesso à água colocam a região no radar de uma indústria que pode movimentar trilhões de reais no Brasil
O Norte de Minas pode estar diante de uma nova frente de desenvolvimento econômico. Com a expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e do processamento de grandes volumes de dados, os data centers deixaram de ser apenas estruturas de tecnologia e passaram a disputar espaço na agenda de energia, infraestrutura, indústria e desenvolvimento regional.
A oportunidade ganhou novo contorno nesta semana. O governo federal sancionou, em 15 de setembro, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), criado para estimular a instalação, ampliação e modernização desses empreendimentos no país. A legislação prevê incentivos fiscais e contrapartidas relacionadas a investimentos, pesquisa e desenvolvimento, sustentabilidade e atendimento do mercado brasileiro. O texto também estabelece condições que favorecem a desconcentração regional, com redução de contrapartidas para investimentos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
O momento coincide com uma projeção bilionária para o setor. Estimativas da indústria apontam que a nova fase de expansão poderá atrair até R$ 1,5 trilhão em investimentos no Brasil. O cálculo considera a possibilidade de expansão da capacidade instalada de data centers diante da crescente demanda provocada principalmente pela inteligência artificial.
Um estudo da FGV Projetos ajuda a dimensionar o tamanho de um empreendimento desse tipo. Um data center de 100 megawatts (MW) voltado à inteligência artificial pode exigir cerca de R$ 25 bilhões em investimentos, considerando infraestrutura e equipamentos. Durante a implantação, a estimativa é de aproximadamente 12.560 empregos diretos e indiretos. Quando são considerados também os efeitos induzidos sobre outros setores da economia, o número chega a 37,2 mil postos de trabalho. Depois da entrada em operação, cerca de 1.860 empregos permanentes podem ser mantidos.
É nesse cenário que o Norte de Minas passa a ter elementos que merecem ser avaliados.
Energia é um dos principais ativos
O primeiro deles é a energia. Regiões de Janaúba e Jaíba já são reconhecidas pelo potencial de geração solar e pela concentração de projetos fotovoltaicos. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) vem estudando justamente a ampliação da capacidade de transmissão necessária para permitir o escoamento dessa produção.
Em revisão de nota técnica, a EPE recomendou a implantação de um quarto banco de autotransformadores de 500/230 kV na Subestação Janaúba 3, além do terceiro banco anteriormente indicado. Segundo a empresa, a recomendação foi motivada pela confirmação da conexão de projetos fotovoltaicos na região e pela necessidade de ampliar a capacidade de escoamento de grandes volumes de geração solar previstos para o Norte e Noroeste de Minas.
Esse dado é particularmente relevante para a discussão sobre data centers. Esses empreendimentos são grandes consumidores de eletricidade e precisam de fornecimento contínuo e confiável. Portanto, não basta haver geração solar próxima: é necessário existir rede de transmissão e distribuição capaz de entregar a energia ao empreendimento, além de capacidade disponível para novas cargas.
A própria expansão da infraestrutura elétrica regional já aparece em estudos da EPE, que identificaram a necessidade de reforços no sistema de transmissão do Norte de Minas, incluindo novas subestações e linhas.
A equação, portanto, pode ser mais complexa — e mais interessante — do que simplesmente vender a ideia de que a região tem muito sol.
Geração renovável + transmissão disponível + terreno adequado + conexão de alta capacidade formam uma combinação que precisa ser analisada município por município.
Água também entra na conta
O segundo grande ponto é a água.
A região do Norte de Minas tem municípios inseridos na bacia do Rio São Francisco, uma das mais importantes regiões hidrográficas do país. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a Região Hidrográfica do São Francisco abrange 521 municípios em seis estados, apresenta papel estratégico para abastecimento, irrigação, indústria e geração de energia e enfrenta também períodos críticos de seca.
Isso significa que a presença do São Francisco ou de seus afluentes não pode ser tratada automaticamente como garantia de disponibilidade hídrica para novos empreendimentos.
Data centers podem utilizar água diretamente em sistemas de resfriamento e indiretamente na cadeia de geração de energia. Estudos recentes sobre o setor reforçam que eficiência hídrica, reuso e tecnologias de resfriamento são componentes importantes para a expansão sustentável dessa infraestrutura.
Por isso, municípios como Pirapora, Várzea da Palma, Buritizeiro, São Romão, São Francisco, Januária, Itacarambi e Manga, entre outros inseridos ou próximos à calha do São Francisco, podem ter ativos territoriais relevantes, mas precisariam apresentar dados técnicos sobre disponibilidade, qualidade da água, outorga, infraestrutura de abastecimento e concorrência com outros usos.
A mesma lógica vale para os reservatórios, rios e projetos de infraestrutura hídrica existentes ou planejados no Norte de Minas.
Montes Claros pode funcionar como polo de serviços
Dentro dessa possível estratégia regional, Montes Claros apresenta outro tipo de ativo: estrutura urbana, mercado de serviços, instituições de ensino superior, formação profissional e posição logística para atendimento de municípios do Norte de Minas.
Um grande data center não movimenta apenas profissionais de informática.
A construção envolve engenharia, construção civil, elétrica, automação, refrigeração, segurança, telecomunicações, fibra óptica, logística e fornecimento de equipamentos. Na fase de operação, entram manutenção, tecnologia, segurança, limpeza especializada, alimentação, transporte, serviços jurídicos, contábeis e administrativos.
É justamente essa cadeia que pode espalhar parte dos efeitos econômicos do investimento para além do terreno onde os servidores estiverem instalados.
O estudo da FGV estima que um empreendimento de 100 MW gere impactos em diferentes setores e que, além dos empregos diretamente associados ao projeto, haja efeitos sobre comércio, alimentação, transporte, saúde, educação e serviços.
O desafio é transformar potencial em projeto
O Norte de Minas, porém, ainda não aparece automaticamente como destino de um grande data center apenas por possuir sol, território e água.
A disputa será técnica.
Um investidor precisará saber quanto de energia está efetivamente disponível, onde estão os pontos de conexão, qual a capacidade da transmissão, quais terrenos podem receber grandes estruturas, qual a disponibilidade hídrica, como funciona o licenciamento ambiental, qual a conectividade por fibra óptica e qual mão de obra pode ser mobilizada.
Também será necessário avaliar riscos climáticos, segurança energética, infraestrutura viária, incentivos municipais e estaduais e a possibilidade de contratação de energia renovável.
O próprio Redata estabelece critérios de sustentabilidade e contrapartidas para os empreendimentos beneficiados, o que tende a aumentar a importância desses indicadores na disputa por novos projetos.
A experiência recente do setor mostra que a competição já começou. Estados e municípios estão tentando combinar disponibilidade energética, áreas industriais, conectividade e incentivos para atrair grandes instalações. A aprovação do Redata amplia essa disputa e, ao mesmo tempo, cria uma janela para regiões fora dos polos tradicionais.
Para o Norte de Minas, a oportunidade pode estar justamente em se apresentar antes que os investidores escolham seus próximos destinos.
Isso significa criar um mapa regional de data centers, reunindo energia, transmissão, terrenos, água, fibra óptica, mão de obra, instituições de ensino, infraestrutura logística e condições ambientais.
Janaúba e Jaíba têm um argumento forte na geração solar. Montes Claros reúne serviços, formação profissional e infraestrutura urbana. Municípios próximos ao São Francisco podem agregar disponibilidade territorial e hídrica, desde que comprovadas tecnicamente. E toda a região pode se beneficiar de uma estratégia integrada, em vez de cada município disputar isoladamente um empreendimento.
A indústria digital está procurando energia para funcionar. O Norte de Minas já produz uma quantidade crescente de energia renovável e possui estudos em andamento para ampliar sua capacidade de transmissão. A questão agora é saber se a região conseguirá transformar esses ativos em infraestrutura preparada para receber a economia digital.
Se isso acontecer, o Norte de Minas poderá deixar de ser apenas fornecedor de energia para grandes centros consumidores e começar a disputar uma posição diferente: a de território onde parte da infraestrutura que sustenta a inteligência artificial, a computação em nuvem e os serviços digitais do país é efetivamente instalada.


