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Janelas que nunca mais se fecham - Rede Gazeta de Comunicação

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Janelas que nunca mais se fecham

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Ao longo da vida, colecionamos janelas. Algumas têm vidro e madeira; outras têm nome, voz, abraço e ensinamentos. Depois que uma delas se abre, nunca mais enxergamos o mundo da mesma forma.

Outro dia senti uma saudade danada da minha mentoria.

Pensei comigo: se pudesse, faria mais algumas sessões. Há momentos em que a gente gostaria de ouvir novamente aquela pergunta certeira, aquele olhar experiente que parece enxergar um pouco mais longe do que nós.

Foi então que me lembrei de uma frase bastante conhecida: “Quando o discípulo está pronto, o mestre desaparece.”

Confesso que essa frase nunca me convenceu.

Nunca me sinto completamente pronta. E, olhando para a minha própria vida, percebi que os mestres que encontrei pelo caminho nunca desapareceram.

Eles apenas mudaram de lugar.

Durante um curso sobre Os 7 Hábitos, anotei uma ideia que nunca mais esqueci: disciplina vem da mesma raiz de discípulo. A verdadeira disciplina nasce quando escolhemos seguir uma filosofia, um conjunto de valores, um propósito que faz sentido para nós. Ela deixa de depender da cobrança de alguém e passa a morar dentro de nós.

Anos depois, em um encontro sobre gamificação no Uruguai, ouvi o professor Raimundo Dinelli dizer algo igualmente marcante: aprender exige vínculo. O professor não fala apenas para o outro; ele caminha um pedaço da estrada junto com o outro. É essa convivência que transforma informação em aprendizado.

Com o tempo, percebi que meus mestres nunca foram apenas professores.

Meus primeiros mentores foram meus pais. Mas também aprendi com meus filhos, com meus netos, com amigos, colegas de trabalho, livros, filmes, viagens, conversas inesperadas e até com os tropeços da vida. Aprendo com tudo e com todos. Basta que uma janela se abra.

Cada encontro deixa uma marca. Algumas pessoas nos ensinam pelo exemplo; outras, por uma simples frase. Há aprendizados que chegam pelas mãos de uma criança e outros pelo silêncio de quem já viveu muito. Todos eles ampliam o nosso horizonte.

Lembro-me de uma frase atribuída a Rui Barbosa sobre o amor de mãe: ele não morre; apenas muda de atmosfera. Gosto de estender esse pensamento aos pais e a todos aqueles que verdadeiramente nos ensinam.

Os mestres não desaparecem.

Eles deixam de ocupar uma cadeira à nossa frente e passam a habitar nosso jeito de olhar, de escolher, de agir e de ensinar.

Sem perceber, repetimos uma pergunta que um dia nos fizeram, oferecemos uma escuta que um dia recebemos, acolhemos alguém como fomos acolhidos. É assim que os ensinamentos seguem vivos, passando de pessoa para pessoa.

Esse, para mim, é o maior legado de um mestre: abrir uma janela que nunca mais se fecha.