Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Outro dia, assistindo a uma série, encontrei uma cena que parecia ter saído do Arena da Comunicação.
Uma menina, por causa de uma deformação na pele, escondia parte do rosto atrás de uma máscara. O que ela mais desejava não era vencer uma eleição na escola. Era pertencer. Queria fazer amigos. Queria sentir que a escola também podia ser um lugar onde fosse vista pelo que era, e não apenas pela aparência.
Ela decidiu se candidatar à presidência da turma, mas não acreditava que conseguiria. Foi então que uma apresentadora, acostumada a falar para câmeras e multidões, ofereceu-se para treiná-la.
As lições pareciam simples. Primeiro, conquistar o coração das pessoas antes de pedir o voto. Depois, sorrir com o olhar. Em seguida, aprender a projetar a voz para que a mensagem chegasse mais longe. Por fim, a lição mais importante de todas: não é a aparência que conquista as pessoas, mas a essência. Se ela deixasse de fazer da sua diferença um peso, essa diferença também deixaria de ser um obstáculo para os outros.
Enquanto assistia àquela cena, tive a nítida impressão de revisitar a história do Arena da Comunicação.
O jogo nasceu para ensinar técnicas. O livro nasceu para revelar identidades.
Hoje percebo que um completa o outro. Técnica sem identidade vira atuação. Identidade sem técnica, muitas vezes, não consegue ser percebida.
Foi então que outra lembrança veio me visitar.
Durante muitos anos utilizei, em meus treinamentos, a ideia das possibilidades gerais, objetivas e percebidas. Todos nós convivemos com possibilidades gerais. Cada pessoa também encontra, em sua realidade, possibilidades objetivas. Mas é nas possibilidades percebidas que mora a coragem de agir.
A menina da série não precisava mudar quem era. As possibilidades objetivas já estavam ali. Ela tinha inteligência, vontade, sensibilidade e um sonho. O que lhe faltava era enxergar tudo isso através da cortina do medo.
Naquele instante, uma frase antiga ganhou um novo significado para mim.
Durante muito tempo ouvi que “querer é poder”. Hoje compreendo essa ideia de outro jeito. Querer é poder quando ampliamos nossas possibilidades percebidas até enxergar tudo aquilo que as possibilidades objetivas já nos permitiam, mas que o medo insistia em esconder.
Foi exatamente isso que aconteceu com aquela menina. Ela não saiu dali diferente. Saiu enxergando de forma diferente a pessoa que sempre foi.
É por isso que continuo acreditando tanto na comunicação. Ela não existe para esconder quem somos nem para fabricar personagens. A comunicação existe para construir pontes, permitindo que a nossa essência encontre o caminho até o coração do outro.
No fundo, esse sempre foi o propósito da Arena da Comunicação: primeiro pelas técnicas do jogo; agora, pelas conversas do livro. Porque uma boa comunicação começa na voz, mas só ganha sentido quando nasce da identidade.



