Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Tem palestra que termina quando o palestrante diz “obrigado”. E tem palestra que continua trabalhando na cabeça da gente. Foi o que aconteceu comigo na sexta feira passada , durante o encontro das Aliadas, na FENICS, depois da palestra de gestão de alta performance conduzida por Arleandro Rodrigues.
Entre tantas ideias, algumas fizeram uma conexão imediata com histórias que carrego comigo.
Arleandro falou sobre a importância de mostrar nossas habilidades, de fazer diferente, de conhecer quem está do outro lado e, em determinado momento, entrou no terreno do recrutamento e seleção. Como trabalhei muitos anos como recrutadora, minha antena profissional levantou na hora.
Ele trouxe uma frase conhecida no mundo da gestão: contratamos pelo currículo e, muitas vezes, demitimos pelo comportamento.
Depois falou sobre marketing, relacionamento e confiança. Uma ideia me chamou especialmente a atenção: o marketing atrai, mas o que vende é o relacionamento. A gente compra o que confia.
Foi aí que eu não resisti e contei a ele uma história minha.
Durante muitos anos, cuidei da minha sogra, Dona Chica, e precisei contratar pessoas para me ajudar nessa tarefa. O recrutamento acontecia do jeito tradicional: currículo, indicação, conversa, referências…
Mas a seleção tinha um método muito particular.
O teste do chuchu.
Eu pedia à candidata que preparasse um chuchu e oferecesse à Dona Chica. Se ela comesse, a candidata continuava no processo. Se cuspisse, estava reprovada.
Não adiantava currículo bonito. Não adiantava indicação. Não adiantava boa conversa.
Dona Chica era a responsável pela etapa final.
Anos depois, olhando para essa história com os olhos de quem trabalha com pessoas, percebo que aquele teste caseiro tinha uma lógica bastante sofisticada: o recrutamento atraía, mas a seleção fazia o casamento.
E casamento, convenhamos, não se sustenta apenas na primeira impressão.
A lembrança ficou ainda mais interessante porque Arleandro também falou sobre fazer diferente. E aquele meu processo de seleção certamente não estava em nenhum manual de RH. Era um jeito simples, divertido e muito eficiente de descobrir se existia compatibilidade entre quem chegava e quem precisava receber aquela ajuda.
No fim das contas, seja para contratar uma pessoa, conquistar um cliente ou construir uma parceria, existe algo que currículo, propaganda e discurso nenhum conseguem garantir sozinhos: a relação que se estabelece depois do primeiro encontro.
Talvez por isso o velho teste do chuchu ainda me faça rir. Ele me lembra que atrair é só o começo. Selecionar é escolher. E relacionar-se é construir.
E, para isso, não existe currículo que dê conta.
Às vezes, só mesmo um chuchu.


