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O que acontece dentro da gente quando nos deparamos com uma atitude humana que nos custa compreender? - Rede Gazeta de Comunicação

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O que acontece dentro da gente quando nos deparamos com uma atitude humana que nos custa compreender?

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

— Mas como alguém consegue fazer uma coisa dessas?

Foi o que pensei hoje diante de mais uma tentativa de golpe.

Não era a primeira vez que recebia uma mensagem desse tipo. Já sei o caminho: não responder, não clicar, bloquear, denunciar e seguir a vida. Dessa vez, porém, depois de fazer tudo isso, fiquei pensando menos no golpe e mais em quem está do outro lado dele.

Fiquei pensando nessa coisa chamada ser humano.

A gente inventa, cria, constrói, cuida. Aprende a confiar, a pedir ajuda, a estender a mão. E existem pessoas que estudam justamente essas nossas características para descobrir onde apertar. Usam a confiança como isca, o medo como argumento e a urgência como estratégia.

É difícil não se entristecer.

O que incomoda não é apenas a tentativa de tirar dinheiro de alguém. É perceber que, para algumas pessoas, o outro deixa de ser uma pessoa e passa a ser uma oportunidade.

Uma oportunidade de ganhar.

Uma oportunidade de enganar.

Uma oportunidade de levar vantagem.

E é aí que a expressão “podridão humana” me vem à cabeça.

Não como uma sentença sobre a humanidade inteira. Seria injusto. Enquanto existem pessoas capazes de explorar a fragilidade alheia, existem muitas outras que fazem exatamente o contrário: ajudam, protegem, avisam, devolvem, cuidam. Gente que encontra uma carteira e procura o dono. Que percebe uma situação de perigo e alerta quem está por perto. Que recebe uma mensagem estranha e pensa primeiro no possível prejuízo do outro.

A diferença está na escolha.

E há outra coisa que me incomoda: não somos nós que precisamos ficar perseguindo o golpista. Podemos nos proteger, bloquear e denunciar. Mas o WhatsApp também precisa fazer a sua parte. Não basta oferecer um botão para que cada usuário se defenda individualmente. É preciso impedir que contas usadas para enganar pessoas continuem funcionando, reaparecendo com outro nome ou outro número e procurando a próxima vítima.

No fim, cada um faz a sua parte.

Eu faço a minha quando não respondo, não clico, bloqueio e denuncio.

O WhatsApp faz a dele quando identifica, interrompe e impede.

E a vida segue.

Porque, se eu deixar que a desonestidade de alguém ocupe todo o espaço dentro de mim, o golpe terá conseguido muito mais do que pretendia.

Terá levado também um pedaço da minha confiança no ser humano.

E essa eu não estou disposta a entregar.