Entidade mineira pressiona por isonomia tributária e afirma que eventual eliminação da cobrança sobre remessas internacionais de baixo valor pode ampliar vantagem de produtos importados, com reflexos sobre empregos, investimentos e produção no Brasil
A possível eliminação da tributação sobre remessas internacionais de baixo valor coloca novamente a chamada “taxa das blusinhas” no centro do debate político e econômico nacional. A discussão, que envolve o Governo Federal, o Congresso Nacional, consumidores, plataformas internacionais de comércio eletrônico e o setor produtivo, ganhou agora um novo alerta da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG).
A entidade avalia que uma eventual extinção da cobrança reduziria ainda mais a competitividade das empresas instaladas no Brasil diante dos produtos importados vendidos por plataformas internacionais. Para a Federação, a discussão ultrapassa a questão do preço das compras feitas pela internet e envolve uma decisão de política econômica com efeitos sobre a indústria nacional, a geração de empregos e a capacidade do país de manter investimentos e produção.
A posição da FIEMG reforça a pressão do setor industrial para que qualquer mudança na tributação seja analisada sob a perspectiva da concorrência entre empresas brasileiras e fornecedores estrangeiros. Na avaliação da entidade, o país não pode criar regras que, na prática, imponham custos mais elevados a quem produz, emprega e investe dentro do território nacional.
Para a Federação, o debate político precisa considerar que a indústria brasileira já convive com uma estrutura de custos tributários, trabalhistas, regulatórios e de conformidade mais pesada. Uma eventual redução ou eliminação da tributação sobre produtos importados de baixo valor, segundo a entidade, poderia ampliar ainda mais essa diferença.
Debate vai além do preço das compras
A preocupação ganhou força diante do crescimento das operações realizadas pelo programa Remessa Conforme após a redução da alíquota de importação para compras internacionais.
Em junho de 2026, primeiro mês completo após a mudança tributária, o valor das vendas alcançou R$ 2,6 bilhões. O resultado representou crescimento de 101% em relação a junho de 2025 e de 37% na comparação com maio.
Os dados divulgados em julho apontaram a continuidade da expansão das compras internacionais. O volume de vendas chegou a R$ 2,32 bilhões, alta de 71,31% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Embora os números não permitam atribuir integralmente o crescimento exclusivamente à alteração tributária, a FIEMG considera que os dados indicam uma aceleração das operações após a redução da alíquota.
Para a entidade, o avanço das compras internacionais coloca uma questão política central: até que ponto o Brasil deve oferecer condições tributárias diferenciadas aos produtos fabricados fora do país enquanto mantém uma estrutura elevada de custos para as empresas que produzem internamente?
Indústria cobra igualdade de regras
Na avaliação da Federação, a ampliação das vantagens tributárias para produtos importados pode aprofundar uma competição considerada desigual com as empresas instaladas no Brasil.
Enquanto fornecedores estrangeiros podem comercializar produtos com uma estrutura tributária diferenciada, a indústria nacional precisa enfrentar custos relacionados à produção, à contratação de trabalhadores, ao pagamento de tributos e ao cumprimento de exigências regulatórias.
A FIEMG alerta que a discussão não se limita ao comércio eletrônico. A perda de competitividade pode atingir setores produtivos mais expostos à concorrência internacional e provocar reflexos sobre a utilização da capacidade instalada, o planejamento empresarial e a decisão de novos investimentos.
A coordenadora da Gerência de Economia da FIEMG, Juliana Gagliardi, afirma que o debate precisa levar em consideração as condições de competição entre empresas brasileiras e fornecedores estrangeiros.
“A indústria nacional precisa competir em condições equilibradas com os produtos importados. Quando há uma diferença nas regras aplicadas aos fornecedores estrangeiros e às empresas que produzem no Brasil, há impactos sobre investimentos, empregos e sobre a capacidade da indústria de continuar gerando valor para a economia brasileira”, afirma.
Pressão sobre governo e Congresso
Ao defender a manutenção da tributação sobre remessas internacionais de baixo valor, a FIEMG sustenta que a cobrança não deve ser interpretada como uma barreira ao comércio eletrônico ou à entrada de produtos estrangeiros no país.
A entidade defende que a questão seja tratada como um tema de isonomia tributária e de política industrial. Para a Federação, não se trata de impedir a concorrência internacional, mas de evitar que empresas estrangeiras disputem o mercado brasileiro com vantagens que não estão disponíveis para quem produz dentro do país.
A posição coloca o setor industrial no centro de um debate que deverá continuar mobilizando o ambiente político. De um lado, estão os argumentos relacionados ao acesso do consumidor a produtos mais baratos e à expansão do comércio eletrônico internacional. De outro, cresce a pressão da indústria por regras capazes de preservar a produção nacional e impedir uma perda ainda maior de competitividade.
Para a FIEMG, uma decisão que privilegie exclusivamente o preço imediato das compras internacionais pode produzir efeitos econômicos mais amplos no futuro, atingindo empregos, investimentos e cadeias produtivas.
Produção e empregos entram na discussão
A Federação alerta que uma política de diferenciação tributária excessiva em favor das compras importadas pode estimular o consumo de produtos fabricados fora do Brasil, enquanto a indústria nacional permanece submetida a uma estrutura de custos considerada elevada.
Nesse cenário, a preocupação não se restringe às empresas. A perda de competitividade pode alcançar trabalhadores e municípios que dependem da atividade industrial para a geração de emprego, renda e arrecadação.
Para a FIEMG, qualquer alteração no modelo atual precisa ser discutida sob uma perspectiva de longo prazo, considerando os efeitos sobre a capacidade da indústria brasileira de competir, investir e manter suas unidades produtivas.
A entidade reforça que o desafio do governo e do Congresso não é escolher entre proteger o consumidor ou defender a indústria nacional, mas construir regras que reduzam as distorções e garantam condições equilibradas de competição.
Diante desse cenário, a Federação defende a manutenção de mecanismos que assegurem maior equilíbrio tributário e concorrencial. A mensagem do setor industrial é clara: decisões sobre a “taxa das blusinhas” não envolvem apenas o preço final de uma compra pela internet, mas fazem parte de uma disputa maior sobre o futuro da produção, dos empregos e da competitividade da economia brasileira.


