Todas as quartas-feiras, veteranos da AABB de Montes Claros transformam o futebol em um encontro de amizade, saúde e boas histórias. Mais do que uma partida, a tradicional pelada dos sexagenários celebra o prazer de viver e a força dos laços construídos pelo esporte
EUSTÁQUIO TOLENTINO
O verdadeiro amor pelo futebol não conhece idade. Resiste ao tempo, desafia as limitações físicas e sobrevive às marcas inevitáveis que os anos deixam no corpo. Mesmo convivendo com dores, lesões antigas e a natural perda da disposição da juventude, um grupo de apaixonados pelo esporte continua dando um belo exemplo de vitalidade, companheirismo e alegria.
Todas as quartas-feiras, no início da noite, dezenas de homens com mais de 60 anos se encontram na AABB – Associação Atlética Banco do Brasil de Montes Claros – para participar da já tradicional pelada de futebol society. Para quem observa de fora, pode parecer apenas mais uma partida entre amigos. Mas, para eles, representa muito mais: é um compromisso com a saúde, com a amizade e, acima de tudo, com uma paixão cultivada desde a infância.
Dentro das quatro linhas, o tempo parece diminuir o ritmo das pernas, mas jamais a vontade de jogar. O campo, que na juventude parecia pequeno, hoje parece imenso. Ainda assim, goleiros, zagueiros, meio-campistas e atacantes se lançam à disputa com a mesma dedicação de décadas atrás. Cada passe, cada dividida e cada gol carregam não apenas técnica e experiência, mas também histórias de campeonatos, torneios, partidas memoráveis e incontáveis peladas disputadas ao longo da vida.
É verdade que os músculos já não respondem com a mesma rapidez, que a velocidade diminuiu e que as lesões insistem em aparecer com mais frequência. Alguns convivem com próteses, outros com cirurgias antigas, dores nos joelhos, tornozelos ou coluna. Há quem precise reduzir o ritmo e quem passe semanas afastado para se recuperar de uma contusão. Mas nada disso parece suficiente para afastá-los daquilo que mais gostam de fazer.
A cada quarta-feira, vence quem consegue chegar ao campo. Vence quem supera a preguiça, o frio, o cansaço, o trânsito, os compromissos familiares e as limitações impostas pela idade. Afinal, o maior troféu não está no placar, mas na oportunidade de reencontrar amigos que compartilham uma história construída ao longo de muitos anos.


Mais do que futebol, a pelada da AABB preserva um patrimônio afetivo. Ali, antigos atletas, profissionais liberais, comerciantes, servidores públicos, empresários e aposentados se encontram em absoluta igualdade. Quando a bola rola, desaparecem cargos, títulos e profissões. Permanecem apenas os amigos unidos pela mesma paixão.
E, como manda a tradição de toda boa pelada, o apito final não encerra a noite. Pelo contrário, dá início a um dos momentos mais aguardados: a resenha. Reunidos ao redor das mesas do clube, entre risadas e recordações, os veteranos comentam os lances da partida, discutem — sempre de forma bem-humorada — os gols perdidos, as grandes defesas, as jogadas polêmicas e, naturalmente, o desempenho de cada um.
Mas a conversa rapidamente ultrapassa os limites do futebol. Fala-se sobre a família, os netos, os desafios da saúde, os acontecimentos da cidade, as lembranças da juventude e os planos para a próxima quarta-feira. Afinal, a amizade cultivada durante tantos anos é, talvez, a maior conquista desse grupo.
Em tempos de isolamento, excesso de telas e rotinas cada vez mais individualizadas, os peladeiros 60+ da AABB oferecem uma verdadeira lição de convivência. Demonstram que envelhecer não significa abandonar os sonhos, as paixões ou os bons hábitos. Pelo contrário, provam que manter-se ativo física e socialmente é um dos caminhos mais importantes para uma vida saudável e feliz.
Cada partida representa uma celebração da vida. Cada abraço ao final do jogo reafirma que o futebol continua sendo uma extraordinária ferramenta de integração entre gerações, de fortalecimento da amizade e de promoção da saúde física e emocional.
Enquanto houver uma bola rolando, um campo disponível e amigos dispostos a compartilhar bons momentos, esses veteranos continuarão escrevendo, semana após semana, uma bonita história de perseverança, alegria e amor ao esporte.
E que venham as dores, as limitações e os cabelos brancos. Porque, para quem carrega o futebol no coração, sempre haverá motivos para calçar as chuteiras, entrar em campo e viver, mais uma vez, a felicidade simples de jogar bola entre amigos.


