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O que fazemos com uma ideia - Rede Gazeta de Comunicação

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O que fazemos com uma ideia

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Vi na internet um calendário de madeira. Três círculos giravam e, por pequenas janelas, apareciam o dia, o mês e o dia da semana.

Gostei. Salvei a ideia.

Dias depois, comprei três peneiras de palha. Não eram de madeira trabalhada, não tinham engrenagens e certamente não haviam sido fabricadas pensando em marcar o tempo. Eram peneiras. Dessas que carregam uma história muito mais próxima da terra do que de uma loja de decoração.

Em casa havia um pedaço de esteira, corda de sisal, pregadores de madeira, alguns pequenos pregadores amarelos e um parafuso de encadernação. Comecei a juntar as coisas.

No calendário que me inspirou, os três círculos giravam.

No meu, não.

A peneira pequena aceitou a função. As outras duas resolveram contrariar o projeto.

E foi justamente aí que começou a parte mais interessante.

Se as peneiras não giravam, eu teria que girar a ideia.

Os pregadores maiores ganharam os números dos dias. Os amarelos ficaram com os meses. Na peneira menor, que gira obedientemente, distribuí os sete dias da semana. O que seria um mecanismo tornou-se uma brincadeira diária de mudar o tempo com as mãos.

Enquanto fazia, lembrei-me dos tempos em que jogávamos Imagem & Ação, Desafino, Perfil e outros jogos de tabuleiro. Em uma das partidas, era preciso fazer alguém chegar a “Bandeira Branca”. Não me lembro mais das regras daquela rodada, mas me lembro da solução: em vez de repetir o que estava dado, alguém encontrou outra maneira de dizer a mesma coisa.

Criar tem muito disso.

A gente vê. Guarda. Mistura. Experimenta. Erra. Substitui. Acrescenta alguma coisa que já estava esquecida numa gaveta. Retira outra. E, quando termina, reconhece a inspiração, mas também reconhece a própria mão.

Meu calendário acabou pendurado num painel de esteira que eu já tinha. Peneiras, sisal, palha, pregadores. Materiais simples, tão próximos da terra e do fazer manual.

E ali voltou também um olho grego que eu havia ganhado e que já fazia parte daquele painel.

Agora ele observa o calendário.

O olho diante do tempo.

Hoje o pregador marca 4. O amarelo diz agosto. A peneirinha aponta terça-feira.

Amanhã, mudo de novo.

Afinal, copiar uma ideia pode ser apenas repeti-la.

Mas dialogar com ela até que encontre o nosso jeito de existir já é outra conversa.