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EDITORIAL | O Norte de Minas não pode continuar pagando a conta da impunidade - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | O Norte de Minas não pode continuar pagando a conta da impunidade

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

O Norte de Minas conhece de perto o alto preço da precariedade quando ela se encontra com a impunidade. Em uma região marcada por grandes distâncias, extensas redes de distribuição de energia e comunidades que dependem de um fornecimento elétrico estável para estudar, trabalhar, produzir e viver com dignidade, o furto de energia e o roubo de cabos deixaram de ser crimes pontuais. Hoje, representam uma séria ameaça à infraestrutura, à economia, à segurança pública e ao bolso de milhões de consumidores que pagam suas contas em dia.

Os números nacionais revelam a dimensão do problema. Em 2024, cerca de 22,5 bilhões de quilowatts-hora (kWh) foram desviados por meio de ligações clandestinas. Já os prejuízos provocados exclusivamente pelo furto de cabos chegaram à marca de R$ 90 milhões em 2025. No entanto, a gravidade dessa realidade não pode ser medida apenas em cifras. Cada quilowatt furtado e cada metro de cabo arrancado da rede significam escolas sem energia, postos de saúde vulneráveis, pequenos comerciantes prejudicados, produtores rurais impedidos de trabalhar e cidades inteiras sujeitas a interrupções no fornecimento.

No Norte de Minas, onde a malha elétrica atravessa longas áreas rurais e localidades de difícil acesso, os efeitos desses crimes tornam-se ainda mais severos. Um único rompimento de rede ou uma ligação clandestina pode deixar comunidades isoladas durante horas, comprometer sistemas de irrigação, paralisar atividades econômicas e afetar serviços essenciais. Uma região que historicamente enfrenta desafios relacionados ao desenvolvimento econômico, à escassez hídrica e às desigualdades sociais não pode ser penalizada também pela insegurança energética.

Há um ponto que precisa ser enfrentado sem romantizações: o chamado “gato” não é um ato de esperteza nem uma infração de menor importância. É furto, previsto na legislação brasileira, que coloca vidas em risco, sobrecarrega o sistema elétrico e transfere prejuízos para toda a sociedade. Segundo especialistas do setor, aproximadamente R$ 35 de cada R$ 100 pagos na conta de energia correspondem às perdas provocadas por desvios ilegais. Em outras palavras, quem cumpre suas obrigações acaba financiando, involuntariamente, a ilegalidade.

O roubo de cabos segue a mesma lógica criminosa. O cobre retirado da infraestrutura elétrica abastece uma cadeia clandestina que envolve receptadores, ferros-velhos irregulares e intermediários que lucram com materiais de origem duvidosa. Enquanto houver quem compre, esconda, misture e revenda esse material sem qualquer controle, o crime continuará sendo financeiramente vantajoso. Por isso, o combate precisa ir além da prisão dos executores. É indispensável atingir o elo que mantém essa engrenagem funcionando: a receptação.

As concessionárias de energia têm ampliado investimentos em monitoramento remoto, sensores inteligentes, reforço estrutural da rede e integração com as forças de segurança. São iniciativas importantes, mas que, sozinhas, não resolverão o problema. Sem fiscalização rigorosa dos estabelecimentos que comercializam metais, inteligência policial, endurecimento das punições e atuação firme do poder público, a criminalidade continuará encontrando espaço para agir.

No Norte de Minas, essa resposta precisa ser tratada como prioridade regional. Estado, municípios, distribuidoras, Ministério Público, forças de segurança e órgãos de fiscalização precisam atuar de forma integrada para proteger uma infraestrutura que é essencial ao desenvolvimento da região. Não se trata apenas de preservar o patrimônio das concessionárias de energia. Trata-se de garantir o funcionamento de hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água, propriedades rurais, indústrias, comércios e milhares de famílias que dependem da energia elétrica para viver e produzir.

A energia é um serviço essencial e um dos pilares do desenvolvimento econômico e social. Quando ela é furtada, desviada ou interrompida pela ação criminosa, todos perdem: o consumidor, o produtor, o comerciante, o poder público e a sociedade como um todo.

O Norte de Minas já enfrenta desafios suficientes para continuar pagando, na conta de luz e no atraso do desenvolvimento, o preço da impunidade.