Atacante do Cruzeiro tinha 17 anos e encantava o Brasil, mas técnico preferiu experiência de Romário, Bebeto e Muller em campanha do tetra
Ele já era chamado de Fenômeno antes mesmo de completar 18 anos. Havia encantado o futebol mineiro com dribles desconcertantes e gols de placa pelo Cruzeiro, mas, na Copa do Mundo de 1994, Ronaldo Luís Nazário de Lima precisou assistir de fora à conquista do tetracampeonato nos Estados Unidos. Convocado pelo técnico Carlos Alberto Parreira com apenas 17 anos, o jovem atacante não saiu do banco de reservas em nenhum dos sete jogos da campanha vitoriosa, uma curiosidade que até hoje provoca debates entre torcedores e historiadores do futebol.
Em entrevista recente ao canal Basticast no YouTube, Parreira abriu o jogo sobre os critérios que o levaram a manter a joia da Toca da Raposa na suplência durante todo o torneio. Segundo o treinador, a decisão não teve relação com desconfiança no potencial do garoto, mas sim com a solidez da dupla de ataque titular — Romário (na época no Barcelona) e Bebeto (do La Coruña) — e com a hierarquia estabelecida no grupo. O comandante lembrou que, além dos dois astros, ele contava com opções mais experientes como Muller (São Paulo) e Viola (Corinthians), que já haviam passado por situações de alta pressão em competições anteriores.
“Se eu colocasse o Ronaldo, quem sairia? O Bebeto ou o Romário? Não era uma questão simples. Naquele momento, se eu precisasse mexer no ataque, o Muller ainda estava à frente dele na fila, porque já tinha jogado uma Copa e conhecia a dinâmica do torneio. Não estou comparando talento — Ronaldo sempre foi um fenômeno —, mas experiência pesava numa decisão de Mundial”, explicou Parreira, que também destacou que a convocação do adolescente já foi um gesto de confiança: “Eu fui muito feliz em levá-lo. Ele poderia nem ter ido, mas era uma obrigação, porque ele já arrasava no Cruzeiro. Levei-o para que tivesse contato com o ambiente de uma Copa e para estar preparado caso precisássemos. Só não foi necessário.”
A trajetória meteórica de Ronaldo até a convocação é digna de roteiro de cinema. Contratado pelo Cruzeiro em 1993, vindo do futebol amador do São Cristóvão (RJ), o centroavante despontou rapidamente: estreou no profissional em maio daquele ano e, em menos de 12 meses, já era artilheiro do Campeonato Mineiro de 1994 e o maior goleador da Supercopa Libertadores de 1993, com atuações que deixaram dirigentes, torcedores e até adversários boquiabertos. Ao todo, pelo clube celeste, R9 marcou 56 gols em apenas 58 partidas — uma média superior a um gol por jogo —, números que justificavam plenamente o chamado à Seleção Principal.
A estreia com a Amarelinha aconteceu em 25 de março de 1994, quando ele entrou nos 10 minutos finais da vitória por 2 a 0 sobre a Argentina, no Estádio do Arruda, em Recife. Já o primeiro gol veio em maio, na goleada por 3 a 0 contra a Islândia, na Ressacada (Florianópolis), num lance que já anunciava o que viria nos anos seguintes. Mas, na Copa, Parreira optou pela segurança: Romário e Bebeto foram implacáveis, marcaram gols decisivos e lideraram o time rumo ao título sobre a Itália, na final disputada em Pasadena.
Ronaldo encerraria sua carreira como um dos maiores artilheiros da história da Seleção, com 62 gols em 98 jogos — incluindo 15 em Copas do Mundo (recorde brasileiro) e dois títulos (1994 e 2002). Contudo, para o torcedor cruzeirense e para os apaixonados por futebol, fica a especulação: o que seria daquela campanha se o Fenômeno tivesse entrado em campo por alguns minutos? Talvez nunca saberemos, mas a própria trajetória posterior de Ronaldo — com dribles, gols e títulos por clubes como PSV, Barcelona, Inter de Milão, Real Madrid e Milan — mostrou que o banco em 1994 foi apenas um ponto de partida, e não um ponto final, para um dos maiores atacantes que o futebol já produziu.



