Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Outro dia, quando estava terminando de revisar uma escrita, aconteceu uma pequena tragédia tecnológica. O texto estava praticamente pronto. Ajustes feitos, palavras escolhidas, tudo caminhando para o ponto final. Foi então que o danado do Ctrl+X aventureiro resolveu entrar em cena.
Num instante, parte da escrita desapareceu.
Minha primeira reação foi a mesma de muita gente diante de um problema tecnológico: pânico. Por alguns segundos tive vontade de decretar:
— Está vendo? Sou burrinha tecnológica mesmo.
Mas, curiosamente, uma conversa me interrompeu.
Em 2024, no meu primeiro contato com o Café do Escritor, apresentei-me exatamente assim. Disse que era uma “burrinha tecnológica”. A resposta veio imediata:
— Não. Você não é burrinha tecnológica. Você é uma exploradora da tecnologia.
Na época achei a frase simpática. Mas não imaginei que ela ficaria guardada na memória para me socorrer num momento desses.
Respirei. Procurei uma solução. Cliquei aqui, procurei ali, pedi ajuda e tentei novamente. Pouco tempo depois, a escrita reapareceu. O problema não era tão grande quanto eu imaginava.
Foi então que percebi que a frase da Yaritza não falava sobre computadores. Falava sobre postura.
Uma pessoa que se considera incapaz costuma desistir mais cedo. Uma exploradora continua procurando. Não porque sabe tudo, mas justamente porque ainda não sabe.
Pensando bem, foi assim que aprendemos tantas coisas na vida. Ninguém nasce sabendo ler, dirigir, cozinhar ou lidar com novas tecnologias. Aprendemos experimentando, errando, perguntando e tentando outra vez.
Hoje continuo apertando botões errados. Continuo me assustando quando alguma coisa desaparece da tela. Mas procuro lembrar daquela correção recebida no Café do Escritor.
“Burrinha tecnológica” parece um ponto final.
“Exploradora da tecnologia” parece o começo de uma aventura.
E, pensando bem, talvez a diferença entre uma coisa e outra esteja apenas na coragem de continuar clicando.



