Operação Inquietação resulta em prisão e fuga cinematográfica
Uma ação planejada da Polícia Militar de Minas Gerais, desencadeada por meio da 11ª Região de Polícia Militar (11ª RPM), resultou na prisão de um jovem de 23 anos e na apreensão de 656 papelotes de cocaína na noite da última segunda-feira (1º). A abordagem ocorreu na Avenida Antônio Lafetá Rebelo, no bairro Santa Lúcia, região periférica da cidade conhecida por apresentar índices elevados de ocorrências relacionadas ao tráfico de entorpecentes e crimes contra o patrimônio.
A captura integrou a chamada Operação Inquietação, uma força-tarefa deflagrada pela inteligência da corporação com o objetivo específico de prevenir crimes violentos contra a vida e o patrimônio, além de sufocar as atividades de organizações criminosas dedicadas ao comércio ilegal de drogas. Os trabalhos concentraram-se em quatro bairros previamente definidos a partir de cruzamentos de dados criminais e denúncias anônimas: Esplanada, Carmelo, Monte Carmelo e Santa Lúcia. De acordo com o boletim interno da PM, a escolha dessas localidades levou em consideração o aumento de homicídios e roubos nos últimos três meses, bem como a identificação de pontos de venda de entorpecentes mapeados por meio de investigações discretas realizadas ao longo de fevereiro.
A blitz que mudou o rumo da noite
Por volta das 21h30, os militares montaram um ponto de bloqueio e fiscalização nas proximidades do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), um local estratégico que dá acesso a várias vias de fuga para os fundos do bairro. Foi nesse cenário que a equipe avistou uma motocicleta Honda CG, de cor vermelha, ocupada por um homem que carregava uma mochila escura de tamanho médio nas costas.
Segundo o relatório da ocorrência, assim que o condutor percebeu a viatura e as luzes de sinalização, seu comportamento mudou drasticamente: ele realizou frenagens bruscas e manobras de derrapagem no asfalto, desembarcou da moto ainda em movimento e, com a mochila presa ao ombro, dispensou o objeto no chão antes de iniciar uma fuga a pé em direção ao Córrego das Melancias – uma área de mata fechada e terreno acidentado, frequentemente utilizada por traficantes para escapar de abordagens.
Os policiais relataram que o suspeito ignorou repetidas ordens verbais de parada, como “polícia, pare!” e “fica quieto”, e manteve a mão direita constantemente ajustada na cintura, o que fez a equipe acreditar que ele pudesse estar armado. Diante do risco iminente de agressão e da possibilidade de fuga definitiva, um dos agentes sacou uma pistola de disparo de munição de elastômero – equipamento não letal utilizado para contenção de ameaças – e efetuou dois disparos na direção do fugitivo. Nenhum dos projéteis atingiu o alvo, mas a ação serviu para quebrar o ímpeto da fuga. O suspeito tropeçou em um barranco e foi alcançado, contido e algemado cerca de 150 metros adiante, já na margem do córrego.
O conteúdo da mochila e a dimensão do crime
Ao realizar a coleta da mochila dispensada, os militares encontraram um volume impressionante: 656 papelotes plásticos contendo uma substância branca, que após teste de campo com reagente específico (tornou-se rósea) confirmou tratar-se de cocaína. Além dos entorpecentes, a mochila também guardava um rolo de fita adesiva transparente, um pacote de sacos plásticos menores e uma tesoura sem ponta – materiais tipicamente utilizados na embalagem e fracionamento da droga para venda no varejo.
O delegado plantonista consultado pela reportagem informou que a quantidade apreendida representa aproximadamente 656 gramas do produto, considerando que cada papelote médio contém cerca de 1g. Em valores de mercado, estima-se que esse carregamento renderia entre R13mileR13mileR 20 mil, dependendo da pureza e do ponto de venda. “Não se trata de um usuário comum ou de um pequeno traficante. Esses números indicam claramente uma pessoa com função de distribuição, um elo médio da cadeia do tráfico”, afirmou o delegado, que pediu anonimato por questões de segurança.
Procedimentos médicos e situação legal do preso
Após a contenção, o suspeito – identificado pelas iniciais R.S.S., 23 anos, com passagens anteriores por receptação e desobediência – foi encaminhado ao Hospital Municipal Alfeu de Quadros para avaliação clínica. A medida seguiu o protocolo padrão da corporação para casos em que o detido tem contato com água não potável (no caso, o Córrego das Melancias, sabidamente poluído por esgoto e resíduos químicos) ou percorre áreas de vegetação densa com risco de cortes, picadas de insetos ou hipotermia. O laudo médico atestou que o jovem não apresentava lesões, escoriações, fraturas ou qualquer queixa de saúde. Liberado ainda na madrugada de terça-feira (2), ele foi conduzido à Delegacia de Polícia Civil de Montes Claros, onde permanece à disposição da Justiça.
Além do crime de tráfico de drogas previsto no artigo 33 da Lei 11.343/06, o suspeito também foi autuado por conduzir veículo automotor sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) em situação de gerar perigo de dano – uma infração penal descrita no artigo 309 do Código de Trânsito Brasileiro. A motocicleta Honda CG, placa não divulgada, foi apreendida e removida para o pátio credenciado do Detran-MG.
Números da Operação Inquietação
A Operação Inquietação não se limitou à prisão e à apreensão das drogas. Entre as 20h de segunda-feira e as 6h de terça, os policiais realizaram um total de 63 abordagens a veículos (entre carros, motos e caminhonetes), lavraram 25 autos de infração de trânsito (por dirigir sem capacete, farol queimado, documentação vencida e outras irregularidades) e flagraram três condutores inabilitados, que foram autuados administrativamente.
No que diz respeito a veículos removidos, além da Honda CG do suspeito, outros dois motocicletas e um automóvel foram guinchados por apresentarem queixas de roubo ou adulteração de sinal identificador. Um quinto veículo, um Fiat Uno, foi apreendido por força de restrição judicial – o proprietário tinha um mandado de busca e apreensão expedido pela Vara de Execuções Penais.
O balanço final da operação foi comemorado pelo comando da 11ª RPM. Em nota enviada à imprensa, o tenente-coronel Ricardo Mendes declarou: “A Operação Inquietação demonstra o compromisso da Polícia Militar com a segurança da população de Montes Claros. Tiramos de circulação mais de meio quilo de cocaína e desarticulamos um ponto de distribuição que certamente alimentaria o vício de centenas de dependentes químicos na região Norte de Minas. Vamos continuar.”
Reação de moradores e próximos passos
Moradores do bairro Santa Lúcia ouvidos pela reportagem, sob condição de anonimato, relataram alívio com a ação. “Ali perto do Zoonoses sempre teve movimento estranho à noite. Carros param rápido, pessoas entram no mato… A gente ficava com medo de sair de casa. Essa operação deu uma acalmada”, disse uma mulher de 45 anos que mora a duas quadras do local da blitz.
A Defensoria Pública foi acionada para acompanhar o caso do preso, que deve passar por audiência de custódia ainda nesta semana. O jovem pode pegar pena de 5 a 15 anos de reclusão pelo tráfico, além de multa, e de 6 meses a 1 ano de detenção pela direção sem habilitação.
Com a Operação Inquietação, a Polícia Militar envia um recado claro às facções criminosas que atuam na região: o cerco está cada vez mais fechado, e o planejamento baseado em inteligência tem colhido resultados expressivos.



