Dia de campo promovido pela ALMG em Mirabela mobiliza lideranças, produtores e estudantes e reforça potencial de tecnologia barata para ampliar a disponibilidade de água no semiárido mineiro.
Uma solução simples, de baixo custo e com potencial de impacto direto na vida de milhares de famílias do campo voltou a ganhar destaque no Norte de Minas. As barraginhas — pequenas bacias escavadas no solo para captar água da chuva — foram apresentadas como alternativa eficiente para enfrentar os efeitos da crise climática e da escassez hídrica em regiões semiáridas.

A tecnologia foi tema de um dia de campo realizado na última sexta-feira (29), no município de Mirabela, promovido pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), dentro das ações do Plano Legislativo de Articulação e Monitoramento de Ações Relacionadas à Crise Climática (Plam Crise Climática). O encontro reuniu lideranças municipais do Norte de Minas, técnicos, produtores rurais e estudantes da rede pública, que também participaram como multiplicadores da iniciativa.
As barraginhas funcionam como pequenas estruturas de contenção da água da chuva, favorecendo a infiltração no solo e reduzindo o volume de enxurradas. O efeito prático é o aumento da recarga do lençol freático, a redução da erosão e a maior disponibilidade de água ao longo do ano, tanto para consumo humano quanto para atividades agrícolas e pecuárias.
Além das barraginhas, o projeto integra um conjunto de práticas de conservação do solo e da água, como terraços em nível, adequação de estradas vicinais e cercamento de nascentes e matas ciliares. A proposta é atuar de forma combinada para melhorar a retenção de água no ambiente rural e recuperar áreas degradadas.
Na bacia do Córrego do Salto, em Mirabela, a iniciativa prevê a implantação de 173 barraginhas, além de cinco quilômetros de terraços e seis quilômetros de cercamento de nascentes e matas ciliares. As ações devem beneficiar cerca de 30 famílias em uma área de aproximadamente 1.100 hectares, com foco na melhoria das condições de produção e permanência no campo.
Durante o evento, produtores rurais relataram os impactos da escassez hídrica na região. O extensionista da Emater-MG, Jorge Veloso, destacou que o avanço da seca no Norte de Minas, intensificado pelas mudanças climáticas, tem pressionado comunidades rurais e ampliado a dependência de soluções emergenciais, como o abastecimento por caminhões-pipa.
Entre os relatos, a produtora rural Geraldina Mendes Neta reforçou as dificuldades enfrentadas nos períodos de estiagem e a importância de alternativas que reduzam a vulnerabilidade hídrica das famílias. Já o produtor Reginaldo Dias destacou os efeitos positivos das intervenções também na melhoria do acesso às propriedades, especialmente em períodos de chuva, quando as estradas se tornam intransitáveis.
Parlamentares que participaram do dia de campo ressaltaram o potencial das barraginhas como ferramenta de enfrentamento à crise hídrica. A 1ª vice-presidente da ALMG, deputada Leninha, destacou a necessidade de ampliar o acesso às tecnologias de conservação do solo diante da redução dos níveis de água em poços e fontes tradicionais na região.

O deputado Gil Pereira classificou a iniciativa como estratégica para o Norte de Minas, destacando seu impacto tanto na produção rural quanto na infraestrutura local. Já o deputado Leleco Pimentel reforçou a importância da participação comunitária, destacando o papel dos chamados “domadores de enxurrada”, que ajudam a transformar o solo em um sistema de retenção natural de água.
A tecnologia das barraginhas foi desenvolvida a partir da observação da natureza pelo engenheiro agrônomo da Embrapa, Luciano Cordoval de Barros, que iniciou os estudos na década de 1980, no próprio Norte de Minas. A ideia evoluiu ao longo dos anos e hoje é reconhecida como uma solução simples, acessível e eficaz para convivência com a seca.
Segundo Cordoval, o princípio da técnica está na própria dinâmica natural da água no solo, reproduzida de forma planejada por meio de pequenas estruturas que favorecem a infiltração e reduzem perdas por escoamento superficial.
O projeto de implantação das barraginhas também prevê expansão para outras regiões de Minas Gerais, como os Vales do Rio Doce e do Jequitinhonha, ampliando o alcance da tecnologia em áreas com diferentes condições climáticas e desafios de acesso à água.
A iniciativa é resultado de uma parceria entre a ALMG, Emater-MG, Embrapa, Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) e Associação Mineira de Municípios (AMM).
Ao integrar conhecimento técnico, políticas públicas e participação comunitária, o projeto busca transformar práticas simples em soluções estruturais para um dos maiores desafios do semiárido mineiro: garantir água ao longo de todo o ano em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas.



