Escolas municipais transformam Avenida Salmeron em palco de memória afetiva, com homenagens a Pepé Paraguassu, Folia de Reis, Festa do Sol, serestas e cavalgadas
O sol da manhã desta segunda-feira (1º de junho) brilhou um pouco mais intenso sobre as margens do Velho Chico. Pirapora acordou em festa. A cidade, que completa 114 anos de emancipação política, vestiu-se de verde, branco e azul — as cores que tremulam na bandeira municipal — e deu início a uma programação que une civismo, arte e pertencimento. O pontapé inicial aconteceu em frente à Delegacia Fluvial de Pirapora, com a tradicional Solenidade de Hasteamento das Bandeiras, conduzida pelo Capitão de Corveta Addison Tavares Couto, em um gesto que simboliza o respeito à Pátria e à história local.
Logo após o ato cívico, o vice-prefeito Maurissim — acompanhado por uma comitiva de secretários municipais, vereadores e representantes das forças de segurança — ocupou o palanque oficial montado na Avenida Salmeron. De lá, ele e as demais autoridades assistiram ao que muitos consideraram o desfile mais emocionante dos últimos anos: uma celebração que levou para a avenida a alma musical de Pirapora.
Tema: “Minha Cidade é uma Canção”
Organizado pela Secretaria Municipal de Educação (SEMED), o desfile cívico-militar deste ano teve como tema “Minha Cidade é uma Canção” — uma escolha proposital. “Pirapora respira música. Das serestas à beira-rio às fanfarras, das folias de reis aos trios elétricos. Queríamos que cada escola trouxesse uma nota dessa partitura”, explicou a secretária de Educação, Kelly Cristina Oliveira, que assina a coordenação do evento.
E assim foi. Uma a uma, as escolas municipais transformaram a Salmeron em um palco a céu aberto.
Escola Geny Hatem: uma homenagem que emocionou
A primeira a desfilar foi a Escola Municipal Geny Hatem, que preparou um espetáculo à parte. Com alas coreografadas, balões coloridos e uma banda de metais, os alunos prestaram uma homenagem ao ex-locutor e cantor piraporense Pepé Paraguassu — figura emblemática que marcou gerações com sua voz inconfundível no rádio e nos palcos da cidade. Enquanto uma gravação original de Pepé ecoava pelos alto-falantes, crianças e adolescentes vestiam camisetas estampadas com frases de suas canções mais famosas. Muitos espectadores, emocionados, não contiveram as lágrimas. “Ele foi a voz da nossa infância. Ver os pequenos homenageando ele é manter viva a memória afetiva de Pirapora”, disse um morador que acompanhava do meio-fio.
Folia de Reis, Carnaval, Festa do Sol e serestas
A Escola Municipal Dona Cândida levou para a avenida a tradição da Folia de Reis, com os alunos caracterizados de palhaços, reis magos e tocadores de caixa e sanfona. A plateia foi convidada a bater palmas no ritmo das catiras.
Já as escolas Dr. Otávio e Maria Coeli Ribas uniram forças para celebrar as duas festas mais populares do país: o Carnaval e as festas juninas. Uma ala desfilou com máscaras de confete e serpentina; a outra, com chapéus de palha e bandeirinhas coloridas. Ao fundo, marchinhas carnavalescas se misturavam a forrós pé-de-serra.
O momento de maior comoção — depois da homenagem a Pepé — veio com a Escola Municipal Mathilde Cordeiro, que recriou a tradicional Festa do Sol — um evento icônico de Pirapora que marcou os verões da cidade entre as décadas de 1970 e 1990. Os alunos exibiram cartazes com fotos antigas da festa, enquanto um trio de percussionistas tocava sucessos que embalaram aquelas edições.
Na sequência, a Escola Municipal Dona Rita resgatou a tradição das serestas piraporenses: casais de alunos dançavam valsas lentas ao som de chorinhos e sambas-canção, com direito a “seresteiros” simulando violões e bandolins. A romântica noite de lua cheia na beira do rio foi representada com fitas azuis e refletores prateados.
Motociclistas, cavalgadas e sinfônica às margens do São Francisco
Mostrando que a cidade também vive de aventura e tradição rural, a Escola Municipal Rui Barbosa destacou o Encontro de Motociclistas, evento que anualmente atrai milhares de motociclistas de todo o país. Alunos desfilaram empurrando mini-motos decoradas, vestidos com jaquetas de couro e capacetes customizados. A Escola Nossa Senhora Aparecida reverenciou as cavalgadas — símbolo da cultura sertaneja — com alunos montados em cavalos de pau, chapéus de vaqueiro e bandeiras de fazendas históricas da região.
Por fim, a Escola Municipal Maria Josefina ofereceu um momento de sofisticação: uma homenagem às noites musicais às margens do Rio São Francisco, batizada de “A Sinfônica”. Os alunos, em trajes de gala improvisados, simulavam uma orquestra sinfônica usando instrumentos de percussão alternativos (latas, garrafas e apitos), ao mesmo tempo que um coral infantil cantava “Sinfonia da Alvorada”, de Villa-Lobos, adaptada para a ocasião.
Participações especiais e diversidade cultural
O desfile não foi feito apenas por escolas. A Fanfarra Federal do IFNMG arrancou aplausos com sua precisão militar e repertório vibrante. O grupo Baticumdum agitou a avenida com ritmos afro-brasileiros. A Ordem DeMolay e as Filhas de Jó desfilaram em trajes cerimoniais, reafirmando o compromisso com a liderança jovem e a filantropia.
A Trupe Artimanha apresentou o Boi-Bumbá — uma versão nordestina do bumba meu boi — com direito a índio, caboclo, vaqueiro e o próprio boi espalhando alegria e fartura. A Associação Rede de Praia do Areião (Ponto de Cultura Viva) trouxe uma barraca de praia improvisada, com cadeiras, guarda-sóis e uma mini-raia de areia, celebrando o lazer às margens do São Francisco.
A Apae de Pirapora desfilou com seus alunos e profissionais, empunhando cartazes que pregavam a inclusão e o respeito à diversidade. O grupo Kalangos do Sertão — conhecido por resgatar danças folclóricas — fez uma apresentação de catira e cateretê que contagiou a todos.
Servidores públicos: a cidade que trabalha por você
Encerrando a programação da manhã, as equipes das secretarias municipais — SEMED, SEMAS (Assistência Social), SEDEARE (Desenvolvimento Econômico, Agricultura, Emprego e Renda) e SESAU (Saúde) — ocuparam a Avenida Salmeron. Uniformizados ou com camisas personalizadas, os servidores caminharam em bloco, carregando faixas que destacavam os avanços de cada pasta: novas unidades de saúde, programas de transferência de renda, incentivo à agricultura familiar, reformas de escolas e ações de empreendedorismo juvenil.
O vice-prefeito Maurissim, ao discursar brevemente do palanque, fez questão de agradecer: “O desfile de hoje não foi apenas um ato decorativo. Foi uma declaração de amor à nossa história e um reconhecimento ao trabalho diário de cada servidor que constrói Pirapora. Estamos de parabéns pelos 114 anos. Mas o futuro começa amanhã, e ele será ainda melhor.”
Fotos, repercussão e próximos eventos
As redes sociais da Prefeitura já divulgaram galerias de fotos oficiais do desfile. Moradores que estiveram presentes destacaram a organização e a emoção das homenagens musicais. “Essa foi a primeira vez que levei minha filha para ver o desfile e ela não parou de perguntar sobre as músicas antigas. Foi lindo”, comentou uma mãe de 32 anos.
A programação do aniversário de Pirapora continua ao longo da semana, com shows, atividades esportivas e sessão solene na Câmara Municipal. Ainda assim, a manhã de 1º de junho de 2026 já ficará marcada como aquela em que a cidade inteira cantou — cada qual com sua melodia — em celebração aos seus 114 anos.



