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O homem que amassa para se encontrar - Rede Gazeta de Comunicação

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O homem que amassa para se encontrar

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Assistindo à série The Man Living in Our House, uma cena aparentemente simples me marcou. Em meio aos conflitos, dúvidas e desconfortos, o personagem principal sempre repetia a mesma frase: “vou amassar”. Ele fazia bolinhos em um restaurante, e era justamente no ato de amassar a massa que parecia conversar consigo mesmo.

Algumas pessoas caminham quando precisam pensar. Outras escrevem. Outras cozinham. Outras silenciam.

Ele amassava.

E quanto mais eu observava aquelas cenas, mais percebia que não era apenas uma tarefa de cozinha. Era um reencontro interno. Como se as mãos organizassem aquilo que ainda não cabia em palavras.

Enquanto assistia à série, lembrei de uma passagem importante da minha trajetória trabalhando com desenvolvimento de pessoas. Durante muitos anos participei da construção de inúmeros PDIs — Planos de Desenvolvimento Individual. Metas, competências, avaliações, habilidades, desempenho. Tudo isso possui seu valor. Afinal, crescer profissionalmente também é uma forma de construção humana.

Mas existe um desenvolvimento que não cabe nas planilhas.

Um desenvolvimento silencioso, interno, quase artesanal.

No quarto capítulo do meu livro, “A copa: uma medida do desenvolvimento”, escrevi justamente sobre a mudança de cadeira que vivi naquele período. Saí do papel de orientadora de PDI para ocupar um outro lugar: o de aprendiz.

E, diferente do personagem da série que dizia sentir desconforto e falta de confiança, percebi em mim o movimento contrário. Quanto mais eu aprendia, mais confortável me sentia. Quanto menos precisava sustentar o lugar de quem sabe tudo, mais leve o caminho ficava.

Descobri que gosto de aprender.

Gosto da sensação de reorganizar ideias, rever pensamentos, desmontar antigas certezas e permitir novos significados. Foi nesse movimento que comecei a enxergar a escrita quase como um PDE — um Plano de Desenvolvimento da Escrita.

Porque escrever também amassa.

Amassa excessos.

Amassa rigidez.

Amassa versões endurecidas de nós mesmos.

E aos poucos vai abrindo espaço para uma escuta mais honesta sobre quem somos, sobre o que sentimos e sobre o lugar que ocupamos na própria vida.

Na série, em determinado momento, o personagem diz que queria ir embora para encontrar seu próprio lugar. Mais tarde, percebe que algumas mudanças não acontecem apenas trocando de endereço. Existem mudanças externas, importantes, necessárias. Mas existem também aquelas mudanças profundas que transformam nossa forma de sentir, perceber e existir.

Depois delas, muita coisa ao redor começa naturalmente a se reorganizar.

Talvez seja por isso que o desenvolvimento humano continue sendo uma das tarefas mais delicadas e bonitas dentro das empresas e fora delas. Porque desenvolver pessoas não é apenas ensinar competências. Muitas vezes, é ajudar alguém a recuperar confiança, pertencimento e consciência sobre si mesmo.

No fim, existem dias em que a alma não procura respostas rápidas.

Procura apenas um espaço seguro para se reorganizar por dentro.

Ainda que seja… amassando massas.