Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Quem nasceu em Minas sabe que frio não é apenas uma condição climática. Frio é um acontecimento. É assunto de conversa na padaria, no açougue, no grupo da família e na fila do banco.
E quando o frio resolve aparecer por estas bandas de Montes Claros, principalmente vindo lá dos lados da Serra do Mel ou descendo pelos cantos do Ibituruna, atravessando a cidade até o Jaraguá, o povo já começa o dia reclamando e agradecendo ao mesmo tempo. Reclamando porque sair da cama vira um desafio olímpico. Agradecendo porque, depois de meses de calor castigando o Norte de Minas, uma friagemzinha também tem seu valor.
O frio do mineiro é diferente. Ele não chega sozinho. Vem acompanhado de um repertório inteiro de expressões que passam de geração em geração. Sempre tem alguém dizendo que está “todo encarangado”, que “isfriô”, que “até o pensamento congelou” ou que “a friagem está de cortar como canivete”.
E tem mais: basta a temperatura cair alguns graus para acontecer um fenômeno curioso. O corpo pede cobertor, mas o coração pede comida.
É nessa época que surgem os verdadeiros heróis da culinária mineira. O caldo de mandioca, a canjica, o quentão, o caldo de feijão, o chocolate quente, a canjiquinha com costelinha, a dobradinha fumegante, o angu bem temperado, o torresmo estalando e aquele pão de queijo que sai do forno espalhando perfume pela casa inteira.
Mineiro não enfrenta o frio. Mineiro come contra ele.
E se tiver um cafezinho recém-passado, melhor ainda. Aliás, café em Minas não é bebida. É patrimônio afetivo. É desculpa para uma visita, motivo para uma conversa e solução provisória para quase todos os problemas do mundo.
Mas entre uma xícara e outra, vale lembrar que o frio também exige alguns cuidados. Muita gente esquece de beber água porque a sede parece desaparecer. Só parece. O corpo continua precisando de hidratação, mesmo quando a temperatura cai.
Outra recomendação importante é para os corajosos que insistem em praticar esportes logo cedo. Tem cidadão que acorda antes do sol nascer, veste a camisa do time, dá dois pulinhos na calçada e já acredita estar pronto para correr, jogar bola ou pedalar.
O problema é que o corpo nem sempre concorda com esse planejamento.
No frio, músculos e articulações ficam mais rígidos. Fazer um aquecimento adequado antes de qualquer atividade física pode evitar lesões e dores desnecessárias. E convenhamos: depois de certa idade, o aquecimento deixa de ser uma recomendação e passa a ser uma necessidade.
Aliás, existe uma fase da vida em que a previsão do tempo perde espaço para a previsão das juntas.
O joelho avisa quando a temperatura vai cair.
A lombar informa a chegada da frente fria.
O ombro estala como se estivesse transmitindo boletins meteorológicos em tempo real.
Tem gente que não acompanha aplicativo de clima. Basta levantar da cama para saber exatamente como estará o tempo lá fora.
Mas, entre uma dorzinha e outra, há também uma beleza difícil de explicar.
O frio nos faz diminuir o ritmo. Aproxima as pessoas. Faz a gente procurar um lugar ao sol na varanda, puxar uma cadeira para a calçada ou esticar uma conversa que normalmente terminaria em cinco minutos.
Talvez por isso o inverno tenha um charme especial em Minas.
Ele nos lembra que nem tudo precisa ser correria. Que ainda existe valor em sentar para tomar um café sem olhar o relógio. Que uma panela de caldo compartilhada pode aquecer muito mais do que o corpo. E que as melhores histórias quase sempre nascem em volta de uma mesa.
O frio passa. Como tudo na vida.
Mas ficam as lembranças das conversas, dos encontros, dos risos e daquela sensação boa de estar em casa enquanto o vento sopra lá fora.
E se a idade trouxe algumas dores, também trouxe uma sabedoria importante: a de entender que poucas coisas são tão reconfortantes quanto um cobertor, um café quente e uma boa prosa mineira numa noite fria de Montes Claros.



