Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Na arrumação das papeladas encontrei uma anotação antiga e ela me devolveu uma cena inteira da infância.
Meu pai criou a gente numa espécie de redoma de vidro afetiva. Não era riqueza, luxo nem excesso de proteção moderna. Era presença. Era confiança. Era aquele sentimento silencioso de que o mundo podia até assustar um pouco, mas dentro de casa existia porto.
Teve uma época em que ele inventou uma brincadeira comigo. Hoje penso que, do jeito dele, talvez estivesse tentando me ensinar alguma coisa sobre coragem e autonomia.
Ele apontava para si mesmo e dizia:
— Finge que eu sou um leão. O leão vai te pegar. Corre. Salta a grade e se salva.
Naquele tempo as casas tinham grades baixinhas. Nem existia essa febre de muros altos, cerca elétrica, câmera para todo lado. A coragem parecia mais natural. Talvez porque a proteção vinha mais das pessoas do que das paredes.
Eu até corria.
Mas no meio do caminho olhava para a cara do meu pai, tão afetuoso, tão incapaz de assustar alguém de verdade, e respondia:
— Leãozinho… pode me comer.
Eu não queria saltar grade nenhuma.
Hoje penso que aquela cena dizia muito mais do que eu entendia na época.
O leãozinho representava justamente a confiança que a minha casa me oferecia. O mundo lá fora existia, claro. Mas havia dentro de mim uma sensação de abrigo tão forte que o perigo perdia força e virava brincadeira.
Depois a vida foi acontecendo.
Vieram as mudanças — que talvez sejam mesmo uma das grandes constantes da existência. Mudança de cidade, de função, de rotina, de papéis.
Eu vi, os muros cresceram junto com os medos modernos.
As casas ficaram mais altas. As pessoas mais cercadas. Mas, às vezes, mais inseguras por dentro.
Hoje percebo que algumas grades a gente atravessa sozinho. Mas o afeto verdadeiro não fica para trás. Ele acompanha.
Hoje entendo que o papel com o qual mais me identifico não foi exatamente o de fugir do leão.
Foi o de aprender.
Aprender o tempo inteiro.
Aprender me reconhecendo nas mudanças.
E talvez cada pessoa tenha dentro de si uma memória assim. Uma cena aparentemente pequena, mas que guarda pistas silenciosas sobre quem somos de verdade.
Às vezes a felicidade mora justamente aí:
no papel que exercemos com verdade e vontade.



