Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Outro dia, conversando com um conhecido que reencontrei depois de muitos anos, ele me fez uma pergunta que parece simples, mas não é:
— Você escreve para quem?
Achei curioso porque ele contou que vinha lendo meus textos tentando descobrir o “fio gerador” da minha escrita. O que conecta um texto ao outro. Para quem eles caminham.
Confesso que tenho dificuldade com essa resposta.
Principalmente quando tentam transformar leitor em caixinha:
idade,
gênero,
perfil,
escolaridade,
nicho.
Até porque os retornos que recebo quase sempre desmontam qualquer teoria pronta.
Tem adolescente que lê e manda recado para a mãe.
Tem amiga da minha faixa etária.
Tem gente mais nova.
Tem gente mais velha.
Tem quem goste porque se diverte.
Tem quem goste porque pensa.
Tem quem goste porque desacelera.
E foi pensando nisso que, do nada, me voltou à memória uma historinha antiga que usei muito em treinamentos.
Um pintor entregou um quadro a um menino e pediu:
— Vá ao açougue e troque isto por um quilo de carne. Mas não aceite menos que isso.
O açougueiro olhou para o quadro, riu e ofereceu cem gramas.
Depois o pintor mandou o menino ao mercado trocar o quadro por uma dúzia de laranjas. A feirante olhou rapidamente e disse:
— Dou duas laranjas.
O menino voltou frustrado nas duas vezes.
Então o pintor entregou um endereço e pediu:
— Agora vá mostrar este quadro a esta pessoa.
Era um marchand.
Quando ele viu a pintura, os olhos brilharam:
— Meu Deus… eu reconheço o traço desse artista. Quanto você quer por esta obra?
A moral da história nunca mais saiu da minha cabeça:
valor não é definido apenas por quem oferece,
mas também por quem recebe.
Talvez seja por isso que eu nunca consiga responder direito “para quem escrevo”.
Talvez eu escreva para quem ainda gosta de refletir.
Para quem não perdeu a curiosidade sobre si mesmo.
Para quem ainda se pergunta:
“Quem sou eu?”
“O que estou fazendo de mim?”
“Será que estou no caminho certo?”
Porque no fim, algumas pessoas olham para um texto e enxergam apenas tinta e papel.
Outras conseguem ver o quadro.



