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Gestação Invisível - Rede Gazeta de Comunicação

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Gestação Invisível

Adelaide Valle Pires

Psicóloga

Outro dia fui a um chá de fraldas.

E, entre um salgado e outro, ouvi uma frase que sempre aparece quando alguém reencontra uma pessoa que escreve:

“E aí? Já vem outro livro?”

Achei curioso.

Porque, de certa forma, livro também entra na categoria das gravidezes públicas.

As pessoas acompanham o nascimento.

Mas quase nunca enxergam a reorganização silenciosa que acontece antes dele.

A barriga aparece por último.

Primeiro, muda o sono.

Mudam os horários.

Mudam as prioridades.

Mudam as conversas internas.

Com a escrita acontece parecido.

Antes de um texto nascer,

existe um corpo inteiro tentando entender o que sente.

Existe uma memória antiga reaparecendo numa gaveta.

Uma frase escutada num café.

Uma conversa atravessando semanas.

Uma ideia que ainda nem tem nome,

mas já começou a ocupar espaço dentro da gente.

E talvez seja justamente essa a parte menos visível da criação.

Porque, antes de escrever para fora, alguma coisa começa a escrever a gente por dentro.

O olhar muda.

As perguntas mudam.

Até os silêncios parecem diferentes.

Às vezes a pessoa ainda nem começou o novo livro…

mas o novo livro já começou a reorganizar a pessoa.

Hoje, arrumando umas pastas antigas, encontrei minhas postagens de meses antes do lançamento da Arena da Comunicação.

Junho. Julho. Agosto. Setembro.

Foi aí que entendi:

o livro já estava nascendo antes de eu perceber.

As palavras ainda não tinham virado capítulos.

Mas a vida já estava se movendo na direção deles.

Talvez escrever seja isso.

Uma espécie de gestação invisível.

Porque, para quem vê de fora,

parece que as coisas surgem rápido.

O livro aparece.

O texto é publicado.

A ideia ganha forma.

Mas, por dentro,

há sempre uma vida inteira se reorganizando antes do nascimento.

E talvez isso não aconteça só com livros.

Talvez aconteça também com escolhas,

mudanças,

relacionamentos,

despedidas

e recomeços.

Tem coisa que começa muito antes de receber um nome.

E, quando finalmente nasce,

a gente percebe:

por dentro,

a vida já estava grávida daquela mudança há bastante tempo.