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O novelo - Rede Gazeta de Comunicação

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O novelo

Adelaide Valle Pires

Autora

Maio chegou para mim como um novelo de lã.

Desses que lembram mãos antigas desenrolando afeto devagarinho.

Como mamãe tricotando cuidado em forma de casaquinho, sapatinho e abraço silencioso.

E o mês foi puxando fios.

Fios do trabalho.

Do tempo.

Dos valores.

Das relações que aquecem sem fazer barulho.

Alguns encontros parecem assim: não chegam prontos.

Vão se desenrolando aos poucos, como linha procurando sentido dentro do tecido da vida.

Dias atrás, observando o movimento ritmado de uma partida de tênis, pensei nisso.

Na beleza das trocas.

Uma mão lança.

A outra devolve.

E talvez conviver seja exatamente isso: aprender o tempo da resposta sem transformar o jogo em disputa.

Escrever também me parece um pouco assim.

Escrever organiza palavras.

Ler reorganiza sentidos.

E no meio desse maio bordado de relações, percebi uma coisa bonita: às vezes família também pode ser isso… gente que acolhe nossas palavras antes mesmo delas estarem prontas.

Talvez por isso alguns afetos permaneçam.

Porque há pessoas que, sem perceber, ajudam a costurar os fios soltos dentro da gente