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CRITICA POLÍTICA E LITERÁRIA | Passado que dói e o futuro que assusta nas páginas de Montes Claros - Rede Gazeta de Comunicação

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CRITICA POLÍTICA E LITERÁRIA | Passado que dói e o futuro que assusta nas páginas de Montes Claros

Mara Narciso e Georgino Jorge de Souza Neto lançam em Montes Claros, no dia 15 de maio, na Casa da deputada Leninha (bairro Panorama), obras que discutem democracia, extremismo religioso e radicalização ideológica. Evento gratuito tem roda de conversa, sessão de autógrafos e venda de exemplares a partir das 19h

O cenário político brasileiro, marcado por tensões entre democracia, fé e radicalização, ganha um termômetro literário no próximo dia 15 de maio em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. Em um evento que promete transformar a Casa do Mandato da deputada estadual Leninha em arena de debate intelectual, a médica endocrinologista aposentada, jornalista e escritora Mara Yamar Narciso da Cruz (Mara Narciso) e o professor e escritor Georgino Jorge de Souza Neto lançam, respectivamente, Impressões Políticas de uma Militante e 2049: O Último Carnaval. A entrada é gratuita, e a programação inclui roda de conversa, sessão de autógrafos e venda de exemplares a partir das 19h, na Rua Gentil Pereira Soares, nº 36, bairro Panorama.

Apesar de partirem de gêneros distintos — um memorialismo político afetivo, o outro uma ficção especulativa distópica —, as obras convergem em um diagnóstico ácido: o Brasil contemporâneo vive uma deriva perigosa na qual a mistura entre fundamentalismo religioso e poder institucional ameaça a própria ideia de pluralidade democrática. Os autores não se limitam a descrever fenômenos, mas os dissecam a partir de suas próprias trincheiras — a vivência pessoal de quatro décadas de militância discreta, no caso de Mara, e a indignação diante dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, no caso de Georgino.

Mara Narciso, que atuou por 40 anos como médica endocrinologista antes de se formar em Jornalismo há 16 anos, conta que o livro Impressões Políticas de uma Militante nasceu de um impulso de organizar meio século de observação silenciosa. “O livro, além de mostrar uma visão política, registra as marcas subcutâneas deixadas por eventos decisivos desde o final da ditadura militar”, afirma. A obra percorre governos, crises institucionais e movimentos populares sem a pretensão acadêmica ou doutrinária — é, antes, uma cartografia emocional e intelectual da construção de uma consciência de esquerda em um ambiente familiar e profissional ultraconservador.

“Meu pai era de extrema-direita e transformava os almoços em pequenos comícios. O ambiente médico também é majoritariamente conservador. Minha formação política não veio de teoria de gabinete, mas de observar a vida, trocar com pessoas diferentes, ouvir música, ver o mundo acontecer”, revela a autora. Esse percurso, pontuado por “uma escrita leve, jornalística, mas com lampejos poéticos e filosóficos”, é também uma defesa intransigente do pensamento crítico. Para Mara, a escola e a sociedade deveriam expor múltiplas versões da história, e não apenas a versão hegemônica. “Eu quero o melhor para a maioria, não para um pequeno grupo entrincheirado. Essa é a minha bússola”, conclui.

Enquanto Mara opera no registro da memória testemunhal, Georgino Jorge de Souza Neto mergulha na distopia como ferramenta de antecipação política. 2049: O Último Carnaval nasceu do “incômodo visceral” após o ataque às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. “Percebi o quão perto a democracia esteve do abismo. Comecei a imaginar um cenário em que o golpe tivesse sido bem-sucedido”, explica. O resultado é um Brasil ficcional governado por uma teocracia militar-religiosa chamada “Evangelistão”, na qual o carnaval — símbolo máximo da diversidade cultural e da irreverência brasileira — é extinto.

O autor, que levou cerca de um ano para desenvolver a narrativa, utiliza elementos realistas como trampolim para o pesadelo lógico. “A história mostra os riscos do fanatismo guiado pela manipulação da fé. Quando o púlpito vira palanque, religião e política deixam de ser esferas separadas para se tornarem uma máquina de moer direitos.” Georgino alerta ainda para o crescimento de alas radicais dentro do catolicismo e a explosão neopentecostal no país, movimento que, segundo ele, tem naturalizado discursos de exclusão e intolerância no Legislativo e no Executivo. “Já existem países governados sob regimes religiosos extremistas. O mundo conhece as consequências: censura, perseguição e pobreza. O livro é um alerta de que ainda há tempo de resistir.”

Embora ainda não tenha lido a obra de Georgino integralmente, Mara Narciso identifica uma “proximidade quase orgânica” entre os dois projetos. “Nós caminhamos na mesma direção. Também alerto em meu livro para o risco de o Brasil se transformar em uma espécie de ‘Evangelistão’ — uma pátria dominada pela teopolítica.” Contudo, a autora faz questão de demarcar um princípio que orienta sua militância: a convivência democrática com o diferente. “Convivemos com pessoas de direita sem nenhum problema. Elas não são inimigas, são adversárias ideológicas. O problema é a intolerância, a tentativa de eliminar quem pensa diferente. Essa eliminação pode começar com uma fala de ódio e terminar num 8 de janeiro permanente.”

A noite do dia 15 de maio, portanto, não será apenas um lançamento literário, mas a materialização de um espaço público de reflexão — algo cada vez mais raro em tempos de algoritmos polarizados e câmaras de eco. “Será um momento para conversar sobre literatura e sobre como ela pode contribuir para a formação da consciência crítica e social das pessoas”, sintetiza Georgino.