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ENTREVISTA | MÁRCIA SÁ: Trajetória no jornalismo, desafios e conquistas - Rede Gazeta de Comunicação

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ENTREVISTA | MÁRCIA SÁ: Trajetória no jornalismo, desafios e conquistas

A jornalista Paula Pereira conversou com a jornalista Márcia Sá sobre infância, formação musical, chegada ao jornalismo, bastidores da imprensa em Montes Claros e os desafios enfrentados como mulher em um mercado predominantemente masculino. Em um bate-papo marcado por memórias afetivas, reflexões profissionais e histórias inéditas, Márcia falou sobre propósito, coragem e perseverança.

PAULA PEREIRA: Márcia, vamos começar falando da sua origem. Onde você nasceu e como foi sua infância?

MÁRCIA SÁ: Eu nasci em Montes Claros. Meu pai era de Pedra Azul e minha mãe da região de Mato Verde. Tenho lembranças muito bonitas da infância. Foi uma fase muito feliz da minha vida. Cresci em uma família muito ligada à cultura, à educação e à arte. Minha mãe era professora e diretora de escola, uma mulher extremamente intelectual e apaixonada pela vida. Meu pai era fotógrafo/ fazendeiro, tinha um estúdio aqui em Montes Claros, e também era muito sensível artisticamente. O pai dele era músico, tocava violino, então acredito que herdei essa inclinação artística da família.

PAULA PEREIRA: A música teve um papel muito importante na sua vida, não é?

MÁRCIA SÁ: Muito. Meu pai percebeu cedo que eu tinha vocação musical e me colocou no conservatório aos cinco anos de idade. Foi ele quem me encaminhou para a música, e eu sou muito grata por isso. Estudei piano erudito durante 15 anos. A música desenvolve sensibilidade, percepção e disciplina. Ela transforma a maneira como a gente vê o mundo. Mas, apesar de amar a música, percebi que queria uma profissão que me permitisse maior contato com as pessoas. O músico, especialmente o erudito, vive um processo muito solitário de formação. Eu queria comunicação, movimento, troca humana. Sempre gostei muito de escrever e isso acabou me aproximando naturalmente do jornalismo.

PAULA PEREIRA: Você sempre teve facilidade com a escrita?

MÁRCIA SÁ: Desde criança. Eu adorava redação, leitura, interpretação. As professoras percebiam isso muito cedo. Eu conseguia resumir histórias com facilidade, organizava ideias rapidamente. Sempre fui apaixonada pela língua portuguesa. Por isso, inicialmente fiz Letras. Minha mãe era professora e eu imaginava seguir o mesmo caminho dela.

PAULA PEREIRA: E em que momento você percebeu que queria mudar de direção?

MÁRCIA SÁ: Já no final do curso de Letras. Eu comecei a entender que queria algo mais dinâmico. Admirava muito o trabalho da minha mãe, mas percebi que buscava uma profissão com maior interação social, mais movimento e comunicação. Foi aí que decidi fazer Comunicação Social.

PAULA PEREIRA: Como foi sua chegada a Belo Horizonte?

MÁRCIA SÁ: Foi uma experiência muito importante. Fui morar com familiares e comecei a estudar Comunicação Social à noite. Durante o dia fazia estágios. Trabalhei em órgãos públicos, prefeitura, empresas e também tive experiências na Fiat. Eu sempre fui muito curiosa, comunicativa e interessada em aprender. Nunca tive medo de começar. Minha rotina era intensa: estágio pela manhã, outro à tarde e faculdade à noite. Era uma fase muito produtiva da minha vida.

PAULA PEREIRA: Você lembra do momento em que surgiu a oportunidade de voltar para Montes Claros?

MÁRCIA SÁ: Lembro perfeitamente. Eu já estava praticamente encaminhada para trabalhar em Belo Horizonte, inclusive com possibilidade no Estado de Minas. Foi quando surgiu o convite do empresário Paulo César Santiago e do deputado Arlen Santiago, através do jornalista Paulo César  de Oliveira, para voltar a Montes Claros e desenvolver um trabalho novo aqui. Confesso que pensei muito antes de aceitar. Mas o que me moveu foi o propósito. Eu senti que poderia construir algo inovador na cidade. Quando você tem propósito, você enfrenta os riscos.

PAULA PEREIRA: E foi aí que começou sua trajetória como colunista social?

MÁRCIA SÁ: Exatamente. Comecei no Diário de Montes Claros. Eu teria minha própria sala, uma coluna e trabalharia também com publicidade e divulgação empresarial. Era algo muito inovador para a época.

Eu fazia um trabalho diferente. Visitava empresas, produzia reportagens institucionais completas, fotografava, entrevistava empresários e transformava aquilo em conteúdo profissional. Era um trabalho de comunicação empresarial muito moderno para aquele momento.

PAULA PEREIRA: Você enfrentou resistência dentro do meio?

MÁRCIA SÁ: Sim, bastante. E muito por eu ser mulher, jovem e ocupar um espaço de destaque. Na época, poucas pessoas tinham formação específica em jornalismo. Eu acredito que isso incomodou algumas pessoas. Minha mãe ficou muito preocupada quando viu aquilo. Eu sabia do meu propósito e da seriedade do meu trabalho e isso sempre me deu força.

PAULA PEREIRA: Você acredita que o fato de ser mulher pesava ainda mais naquela época?

MÁRCIA SÁ: Sem dúvida. E não apenas por ser mulher, mas por ser uma mulher jovem em posição de visibilidade. Muitas vezes, quando um homem conquista espaço, ele é visto como competente. Quando é uma mulher, principalmente uma mulher jovem, bonita e comunicativa, surgem julgamentos, interpretações equivocadas e até ataques pessoais. Infelizmente, isso ainda acontece hoje, embora de formas diferentes.

PAULA PEREIRA: Depois você passou também pelo Jornal Gazeta, não foi?

MÁRCIA SÁ: Sim. Minha ida para o Gazeta foi uma decisão muito tranquila. Não houve briga nem conflito. Apenas percebi que meu ciclo anterior havia se encerrado. No Gazeta fui muito bem acolhida. Gostava da equipe, do clima e da liberdade profissional. Foi um período importante da minha trajetória.

PAULA PEREIRA: Em determinado momento você desacelerou a carreira para cuidar da família. Como foi isso?

MÁRCIA SÁ: Meu padrasto adoeceu e minha mãe precisava de apoio. Então comecei a dividir meu tempo entre Montes Claros, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Foram anos muito intensos. Depois que ele faleceu, continuei acompanhando minha mãe de perto. Ela foi uma mulher extremamente forte. Quando meu pai morreu, nós éramos muito jovens e ela assumiu tudo sozinha. Sempre dizia: “Agora sou mãe e pai de vocês”. O trabalho foi a grande terapia dela diante da dor.

PAULA PEREIRA: E hoje, olhando para toda a sua trajetória, que conselho você deixaria para os jovens?

MÁRCIA SÁ: Eu diria que é fundamental ter foco e propósito. A adolescência é uma fase decisiva da vida. É quando você constrói conteúdo, disciplina e estrutura emocional para enfrentar o futuro. Vejo muitos jovens dispersos, presos apenas às redes sociais, sem direção. É preciso aproveitar o tempo, estudar, buscar conhecimento e construir algo sólido. Porque quando você desenvolve força interior cedo, você consegue recomeçar quantas vezes forem necessárias ao longo da vida.

PAULA PEREIRA: E o que mais te motiva hoje?

MÁRCIA SÁ: Continuar aprendendo. A vida nunca para de ensinar. Ainda tenho muitos projetos, vontade de estudar mais, fazer especializações e continuar me reinventando. Acho que a grande força da vida está justamente nisso: seguir em movimento.