O avanço ocorre em um cenário de maior dinamismo econômico e ampliação das oportunidades de emprego, fatores que têm incentivado trabalhadores a buscar melhores condições profissionais
Um levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais revela uma mudança significativa no comportamento do mercado de trabalho mineiro nos últimos anos. Entre 2020 e 2025, o número de demissões voluntárias — quando o próprio trabalhador pede desligamento — saltou de 384,1 mil para 952,7 mil, um crescimento expressivo de 148%.
O avanço ocorre em um cenário de maior dinamismo econômico e ampliação das oportunidades de emprego, fatores que têm incentivado trabalhadores a buscar melhores condições profissionais. Nesse período, a participação das demissões a pedido no total de desligamentos também aumentou, passando de 23% em 2020 para 35% em 2025.
Para entender o fenômeno, a FIEMG analisou o perfil dos trabalhadores que optaram por deixar seus empregos, considerando critérios como idade, escolaridade, setor de atuação e faixa salarial. Os dados mostram que a mobilidade é mais intensa entre jovens e trabalhadores com menor nível de qualificação.
Segundo o economista-chefe da entidade, João Gabriel Pio, esse comportamento está ligado principalmente a funções com baixa exigência técnica e maior facilidade de substituição. “A mobilidade no mercado está associada a trabalhadores no início de carreira e a ocupações com menores barreiras de entrada, nas quais predominam movimentos horizontais entre postos semelhantes, com ganhos marginais de renda ou melhores condições imediatas”, explicou.
Jovens lideram pedidos de demissão
O estudo aponta que os jovens são os principais responsáveis pelo aumento das demissões voluntárias. Trabalhadores com idade entre 18 e 24 anos representam 30% dos desligamentos, enquanto a faixa de 25 a 29 anos amplia esse percentual para cerca de 48% do total.
Esse padrão indica que a fase inicial da vida profissional é marcada por maior experimentação e busca por oportunidades mais alinhadas às expectativas individuais. Já o grupo entre 30 e 39 anos responde por 25% das saídas, geralmente motivadas por progressão de carreira e melhoria salarial.
Entre os trabalhadores mais experientes, a participação é menor: 16% na faixa de 40 a 49 anos e apenas 9% entre aqueles com 50 anos ou mais.
Escolaridade e setores influenciam mobilidade
Em relação à escolaridade, o levantamento mostra que a maioria das demissões voluntárias ocorre entre trabalhadores com ensino médio completo, que representam cerca de 63% dos casos. Esse dado reforça a ideia de maior rotatividade em ocupações de entrada no mercado de trabalho.
Por outro lado, profissionais com ensino superior completo correspondem a apenas 9% dos desligamentos voluntários, indicando que esse grupo tende a realizar mudanças mais estratégicas, em busca de crescimento profissional e melhores condições de trabalho.
No recorte por setores, o comércio lidera com 41% das demissões a pedido, seguido pelos serviços (37%) e pela indústria (35%). Já agricultura (28%) e construção civil (20%) apresentam menor participação relativa nesse tipo de desligamento.
Salários e funções com maior rotatividade
Os dados também evidenciam diferenças salariais entre os setores. As maiores médias de remuneração foram registradas na construção civil (R$ 2.387), na indústria (R$ 2.311) e nos serviços (R$ 2.249). Já o comércio (R$ 1.872) e a agricultura (R$ 2.029) apresentaram os menores valores.
Entre as ocupações com maior número de demissões voluntárias em 2025 estão vendedor do comércio varejista, faxineiro, alimentador de linha de produção, operador de caixa e atendente de lojas e mercados — funções caracterizadas por menor exigência de qualificação e alta rotatividade.
Nessas atividades, os salários variam, em média, entre R$ 1.670 e R$ 1.800, o que reforça o padrão identificado pela FIEMG: trabalhadores em postos com menor remuneração e maior facilidade de substituição tendem a trocar de emprego com mais frequência.
Mudança no perfil do mercado de trabalho
Para especialistas, o aumento das demissões voluntárias não deve ser interpretado apenas como instabilidade, mas também como um indicativo de maior dinamismo e liberdade de escolha no mercado de trabalho.
“O recorde de demissões a pedido em 2025 evidencia não apenas o aquecimento do mercado, mas também uma mudança no padrão de mobilidade ocupacional no Brasil. Trata-se de um fenômeno concentrado em perfis específicos, especialmente jovens e trabalhadores com menor qualificação”, concluiu João Gabriel Pio.
O estudo da FIEMG aponta, portanto, para um cenário em que o trabalhador, sobretudo o mais jovem, assume papel mais ativo na condução de sua trajetória profissional, ainda que muitas vezes em busca de melhorias imediatas, e não necessariamente de avanços estruturais na carreira.



