Com recorde no bolso e dever de casa cumprido, Artur Jorge faz alerta: “Torcida fez a parte dela; nós precisamos melhorar o espetáculo”
O Mineirão vestiu azul e virou caldeirão. Na noite da última terça-feira (28/4), 59.126 torcedores do Cruzeiro compareceram ao Gigante da Pampulha para empurrar a equipe rumo a uma vitória magra, por 1 a 0, sobre o Boca Juniors, pela terceira rodada do Grupo D da Libertadores. O número não apenas superou em mais de 15 mil pessoas a antiga marca da temporada (43.929 contra a Universidad Católica) como também estabeleceu novo recorde de renda bruta: R$ 4.666.867,50.
Mas, para o técnico Artur Jorge, o show esteve majoritariamente nas arquibancadas. Em entrevista coletiva, o comandante português não escondeu o impacto emocional de comandar um time sob pressão positiva tão intensa.
“Aproveito o momento para confessar: deu-me um gozo imenso jogar com o Mineirão cheio. Foi extraordinário sentir o apoio, ver toda a Nação Azul a vibrar do início ao fim. Especial, sem dúvida.”
No entanto, o mesmo tom empolgado deu lugar a uma autocrítica cirúrgica. Artur Jorge avaliou que o futebol apresentado ficou aquém do que a festa das arquibancadas merecia.
“Em termos de espetáculo, poderíamos todos ter dado um bocado mais. Quem veio assistir merecia sair mais satisfeito – não só com o resultado, mas também com o jogo jogado.”
E político que é, o treinador português tratou de dividir a responsabilidade: a declaração no plural (“poderíamos todos”) indica que a insatisfação estética alcança comissão técnica e elenco, não apenas fatores externos.
O jogo que foi (e o que deixou de ser)
A análise de Artur Jorge encontra respaldo no que os 90 minutos mostraram. O Boca Juniors armou uma postura reativa desde o apito inicial: linhas baixas, marcação física, faltas táticas e pouco ímpeto ofensivo. O Cruzeiro, por sua vez, rodou a bola mas pecou na profundidade. No primeiro tempo, o goleiro Marchesín foi espectador de luxo.
O árbitro uruguaio Esteban Ostojich tentou conter os ânimos com cartões. Aos 41 da etapa inicial, aplicou o segundo amarelo ao atacante Bareiro, deixando os mandantes em vantagem numérica por todo segundo tempo.
A vantagem não se traduziu em fluidez imediata. Artur Jorge promoveu apenas uma alteração no intervalo – Fagner deu lugar a Kauã Moraes na lateral direita – e viu seu time acumular posse de bola estéril diante de uma linha de cinco defensores argentinos.
O gol de alívio saiu só aos 37 minutos da etapa final: o atacante Kaio Jorge cruzou da ponta direita, e o centroavante Villarreal, recém-acionado no lugar de Keny Arroyo, escorou para as redes. Explosão no Mineirão. Alívio técnico. E 59 mil vozes que nunca se calaram.
O que muda na Libertadores
Com o triunfo, o Cruzeiro chegou a seis pontos e pulou para a liderança do Grupo D, superando o próprio Boca Juniors no critério de confronto direto (já que os argentinos também somam seis). A Universidad Católica, que bateu a Raposa em casa na rodada anterior, tem três pontos e ainda pode retomar a vice-liderança ou o topo da tabela, dependendo do resultado contra o Barcelona-EQU, nesta quarta-feira (29/4), no Equador.
A festa em Belo Horizonte teve ainda um episódio à margem do futebol: um torcedor do Boca Juniors foi detido no Mineirão sob acusação de racismo – tema que já rendeu manifestações da Conmebol e deve ser aprofundado nos próximos dias.
Destaques de bastidor
• Recorde duplo: maior público e maior renda bruta do Cruzeiro no ano.
• Próximo compromisso: a Raposa volta a campo no domingo pelo Campeonato Brasileiro, antes de visitar o Barcelona-EQU na quarta-feira seguinte, pela Libertadores.
• Clima no vestiário: nos corredores do Mineirão, jogadores relataram dificuldade para ouvir as instruções de Artur Jorge no segundo tempo – não por desatenção, mas por causa do volume vindo das arquibancadas.



