Adelaide Pires
Autora
— Uai… hoje é boate?
Foi assim que entrei.
Luz baixa, silêncio meio suspeito e o senhor F, firme no cavalo, como se já soubesse de tudo antes de todo mundo. A turma riu. Eu também. Porque rir, às vezes, já coloca a gente em movimento.
— Hoje promete…
Prometeu.
Meu lugar? A cadeira.
Engraçado… ontem ela ainda era tortura. Hoje, virou prosa.
Na primeira contração já entendi: sexta é feriado, mas o corpo não entrou nesse acordo.
Do lado, no Cadillac, uma mãe. Logo depois, a filha. Uma perto da outra, como quem cuida e se deixa cuidar ao mesmo tempo. Fiquei ali no meio: de um lado, o senhor F — quieto, inteiro no que fazia. Do outro, afeto em dupla.
E eu… ali, tentando acompanhar.
Comecei dizendo sobre o quanto eu era tímida, o quanto evitava falar em público.
O senhor F, que quase não fala, olhou e perguntou:
— E como é que conversa tanto?
Rimos… e foi como se acendesse uma luz simples, dessas que não fazem barulho.
Tem coisa que a gente só entende vivendo.
Tem silêncio que é escolha.
E tem fala que aproxima.
Na hora, lembrei de uma carta do meu jogo. Isócrates.
Um homem marcado pela timidez… e ainda assim lembrado pela forma como ajudava outros a encontrarem voz.
Não por falar mais alto.
Mas por sustentar o que dizia.
A aula seguiu.
Pernas, abdômen… e, sem perceber, a gente já estava mexendo em outras coisas também.
Timidez.
Ciúme.
Inveja.
No final, o senhor F voltou ao lugar dele. Quieto. Mas não igual.
Eu saí com uma sensação boa. Dessas que não precisam de explicação.
E o melhor ainda veio depois: no meio do caminho, seguimos juntas — eu, a mãe e a filha. Conversa leve, daquelas que não precisa esforço.
Caminhar também é isso.
Tem dia que a gente exercita a perna.
Tem dia que exercita a escuta.
E tem dia em que uma coisa puxa a outra.
Nem todo texto nasce pronto.
Alguns… pedem coragem.
E, às vezes, começam assim:
com uma cadeira que deixa de ser tortura,
um silêncio que vira pergunta,
e uma conversa que continua…
até depois da aula.



