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ENTREVISTA | LOLA CHAVES: Memórias de um Tempo em que a Vida Era Mais Próxima - Rede Gazeta de Comunicação

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ENTREVISTA | LOLA CHAVES: Memórias de um Tempo em que a Vida Era Mais Próxima

Há histórias que não se limitam ao relato de uma vida — elas guardam, em cada lembrança, fragmentos de uma cidade, de costumes e de um tempo que insiste em sobreviver na memória. Assim é a trajetória de Lola Chaves, nascida Maria de Lourdes, mas eternizada pelo apelido que surgiu ainda na infância e a acompanhou por toda a vida.

Com mais de nove décadas de experiências, ela revisita, com lucidez e leveza, uma Montes Claros que já não existe da mesma forma: ruas de casas abertas, vizinhos que eram como família, festas embaladas por serestas e uma convivência marcada pela simplicidade e pelo afeto.

Entre recordações da infância, histórias familiares, a forte influência dos pais e uma vida marcada pela música e pelas relações humanas, Lola também surpreende ao revelar escolhas pouco convencionais — como o casamento vivido na maturidade, aos 81 anos, reafirmando que o tempo nunca foi obstáculo para quem sabe viver com intensidade.

Nesta entrevista, Lola Chaves compartilha memórias, sentimentos e reflexões que atravessam gerações, revelando que, mais do que o passar dos anos, é a forma de viver que dá sentido à existência.

PAULA PEREIRA: Para começarmos, a senhora pode dizer seu nome completo?

LOLA CHAVES: Fui registrada como Maria de Lourdes Chaves. Meu pai era Chaves e minha mãe Figueiredo.

PAULA PEREIRA: E hoje a senhora é conhecida como Lola Chaves, certo?

LOLA CHAVES: Isso. Esse apelido surgiu na infância, porque eu não conseguia falar “Maria de Lourdes” direito. Eu falava “Lola”, e acabou ficando.

PAULA PEREIRA: Qual o nome dos seus pais?

LOLA CHAVES: Meu pai se chamava João Chaves e minha mãe, Maria das Mercês Figueiredo Chaves.

PAULA PEREIRA: A senhora nasceu em Montes Claros?

LOLA CHAVES: Não. Nasci em Bocaiúva. Meu pai morou lá por um tempo, mas eu vim ainda muito pequena para Montes Claros. Fui criada aqui, me casei aqui, então considero Montes Claros minha terra do coração.

PAULA PEREIRA: Como era Montes Claros naquela época?

LOLA CHAVES: Era bem diferente. Eu fui criada na Rua Doutor Veloso, onde hoje tem cartório. Naquele tempo era só casa, só residência. Depois que construíram prédios e comércios, a rua foi se movimentando.

PAULA PEREIRA: E como foi sua infância?

LOLA CHAVES: Foi muito boa. Eu brincava como toda criança. Na época chovia mais, a gente brincava na chuva. Tinha muitos amigos e uma convivência muito próxima com os vizinhos. Antigamente os vizinhos eram como família.

Também participei muito das atividades da igreja, como a coroação de Nossa Senhora. Eu me vestia de anjo e cantava músicas, inclusive algumas compostas pelo meu pai.

PAULA PEREIRA: Como era a relação entre seus pais e os filhos naquela época?

LOLA CHAVES: Meu pai era mais fechado, um pouco antissocial, não gostava muito de sair. Já minha mãe era uma santa, muito paciente e humilde. Todo mundo admirava muito ela, inclusive padres da época. Ela tinha uma paciência enorme com meu pai.

PAULA PEREIRA: E sobre seu pai, ele teve alguma atuação profissional marcante?

LOLA CHAVES: Ele era muito inteligente. Chegou a atuar como advogado, mesmo sem formação, antes da criação da OAB. Depois disso, não pôde mais exercer. Mas era muito respeitado.

PAULA PEREIRA: A senhora mencionou festas. Como eram naquela época?

LOLA CHAVES: As festas eram muito animadas. Aconteciam no Automóvel Clube e também nas casas. Tinha dança, música ao vivo, serenatas. Antes das bandas, havia serestas com instrumentos como bandolim e violão. Eu mesma organizei o primeiro baile de debutantes de Montes Claros no clube.

PAULA PEREIRA: A senhora teve muitos irmãos?

LOLA CHAVES: Éramos sete ao todo: quatro homens e três mulheres. Hoje, infelizmente, quase todos já faleceram.

PAULA PEREIRA: A senhora se casou?

LOLA CHAVES: Sim, mas bem tarde. Casei aos 81 anos. Foi um encontro muito especial. Ficamos juntos por 11 anos. Ele era músico, tocava viola, escrevia e gostava muito de arte, como eu.

PAULA PEREIRA: E como foi essa fase?

LOLA CHAVES: Foi muito boa. Apesar de algumas críticas da família no começo, ele foi um companheiro excelente. Infelizmente, ele faleceu em maio de 2024, após problemas de saúde.

PAULA PEREIRA: A senhora sempre teve ligação com música e cultura, não é?

LOLA CHAVES: Sim, isso veio muito do meu pai. Tenho irmãs que também eram muito talentosas: uma tocava piano e outra escrevia, cantava e chegou a publicar livro.

PAULA PEREIRA: Para finalizar, o que a senhora guarda com mais carinho daquela época?

LOLA CHAVES: A convivência com as pessoas, as amizades verdadeiras, as festas simples e cheias de alegria, e a presença da música na vida da gente. Era tudo mais próximo, mais humano.