Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Tem gente que nasce na cidade e passa a vida inteira tentando entender o campo. E tem quem nasça no campo e carregue a roça dentro de si, mesmo quando o mundo lhe empurra para outros caminhos. A história de Flávio Gonçalves Oliveira é dessas que não se explicam só com currículo — se contam com cheiro de terra molhada, com lembrança de infância e com a teimosia bonita de quem não esquece de onde veio.
“Eu nunca saí da roça, não… a roça é que veio comigo”, poderia dizer ele, numa dessas prosas mansas de fim de tarde, quando o sol se deita por trás da serra e o silêncio parece conversar com a gente.
Nascido e criado, nos primeiros anos de vida, no ambiente rural, Flávio é fruto de um tempo em que a infância não tinha pressa, mas tinha responsabilidade. Até os quatro anos, o chão que ele conhecia era de terra batida, o horizonte era aberto e o mundo se resumia ao essencial: família, trabalho e sobrevivência. Depois, como acontece com tantas histórias do Norte de Minas, veio a mudança — a travessia da roça para a cidade, impulsionada por um sonho antigo e coletivo: estudar.
E estudar, naquele tempo — e ainda hoje, em muitos cantos — era mais do que aprender. Era romper destino.
Passou pelo Colégio Padrão, depois pelo colégio agrícola, até fincar os pés na Universidade Federal de Viçosa, onde o menino da roça começou a se transformar em doutor. Mas não um doutor desses que esquecem o caminho de casa. Ao contrário. Cada passo acadêmico parecia, na verdade, um retorno mais profundo à própria origem.
“Quem aprende sem raiz, aprende pela metade”, diria um velho produtor, desses que medem o tempo pela chuva. E Flávio, ao que tudo indica, entendeu cedo essa lição.
Formado, doutor em engenharia agrícola, ele poderia ter seguido caminhos mais distantes, mais urbanos, mais confortáveis talvez. Mas escolheu o contrário: voltou o olhar para o campo, para a terra, para as pessoas que, como seus pais — Francisco de Assis Gonçalves Oliveira e Eloina Gonçalves Oliveira —, aprenderam a viver com pouco, mas nunca deixaram de acreditar no valor do conhecimento.

Hoje, à frente da Sociedade Rural de Montes Claros, como seu 29º presidente, Flávio representa mais do que uma liderança institucional. Ele encarna uma ponte — dessas que ligam tradição e inovação, passado e futuro, saber empírico e ciência.
Mas é preciso dizer: o campo mudou. E muito.
O agro, que antes era sinônimo de enxada e esforço bruto, hoje conversa com tecnologia, gestão, sustentabilidade e mercado global. Ainda assim, há algo que não mudou — e talvez nunca mude: a dependência do tempo, da água, da terra e, sobretudo, das pessoas.
É nesse ponto que a trajetória de Flávio ganha contorno mais humano. Porque, para além dos cargos — presidente da Sociedade Rural, da Fundetec, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Verde Grande, integrante da diretoria da ABID —, existe uma escolha silenciosa, mas poderosa: a de servir.
“O saber que não volta pra comunidade vira luxo”, já dizia um professor antigo. E Flávio parece ter levado isso como princípio.
Seu envolvimento com o associativismo e o voluntariado revela uma compreensão que vai além da técnica. No sertão mineiro, ninguém cresce sozinho. A lógica é outra: é de mutirão, de parceria, de dividir o pouco para que não falte o mínimo. É o velho ensinamento geraizeiro: “quando um puxa o outro, a caminhada fica mais leve”.
E talvez seja exatamente isso que sustenta sua atuação: a ideia de que o desenvolvimento do agro no Norte de Minas não passa apenas por máquinas ou investimentos, mas por gente. Gente que planta, que colhe, que erra, que recomeça.
Em tempos em que o campo muitas vezes é reduzido a números e estatísticas, histórias como essa devolvem a dimensão humana ao debate. Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é só produção — é pertencimento.
“Quem não sabe de onde veio, não sabe pra onde vai.” A frase, repetida à exaustão em rodas de conversa, encontra eco aqui. Flávio não apenas sabe de onde veio — ele fez disso seu norte.
E assim segue, entre reuniões, decisões e responsabilidades, carregando consigo aquilo que diploma nenhum concede: identidade.
Porque há títulos que a universidade dá. E há outros que só a vida na roça ensina.
E desses, ao que tudo indica, ele entende bem.



