Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Há histórias que parecem escritas com tinta invisível muito antes de ganharem forma concreta. Histórias em que o destino se insinua em pequenos gestos, em palavras ditas quase por intuição, como se o futuro, silenciosamente, já estivesse em construção. A trajetória do reitor da Universidade Estadual de Montes Claros, professor Wagner de Paulo Santiago, carrega exatamente esse tipo de narrativa — daquelas em que origem e destino dialogam, mesmo quando o protagonista ainda não percebe.
Filho de um vaqueiro e de uma trabalhadora simples, criado entre o esforço cotidiano e a dignidade de uma família numerosa no Norte de Minas, Wagner cresceu em um ambiente onde o estudo não era apenas uma escolha, mas uma possibilidade de transformação. Entre o barro da infância no bairro Melo e os desafios da vida urbana que surgia ao redor, formou-se não apenas um estudante aplicado, mas um homem forjado na persistência.
Mas, entre tantas lembranças que ajudam a explicar sua trajetória, há uma que se destaca com força simbólica. Ainda jovem, quando o título de “doutor” parecia algo distante — quase inalcançável para quem vinha de uma realidade tão simples — seu pai, Vicente de Paulo Santiago, passou a chamá-lo assim. “Doutor”. Não como formalidade, mas como afirmação. Como crença.
Naquele momento, Wagner ainda não sabia qual caminho seguiria. Não havia decidido pela contabilidade, não havia ingressado na universidade, tampouco cogitava a vida acadêmica. E, no entanto, aquele homem simples, acostumado à lida do campo, parecia enxergar além. Chamava o filho de “doutor” como quem nomeia um destino.

O tempo, com sua lógica paciente, tratou de dar sentido àquela intuição. Anos depois, já inserido na vida universitária, Wagner não apenas consolidou sua carreira acadêmica como também alcançou um feito notável: foi aprovado em dois programas de doutorado em universidades federais. O título que um dia soou como sonho — ou até exagero — tornou-se realidade. E mais que isso: tornou-se símbolo.
Não é apenas sobre conquistar um diploma. É sobre validar uma história. É sobre mostrar que, mesmo nas trajetórias mais improváveis, há uma força invisível que empurra, sustenta e guia. No caso de Wagner, essa força tem nome, tem origem e tem afeto: a família.
Ao longo da entrevista, o reitor deixa claro que sua caminhada não é individual. Ao contrário, é profundamente coletiva. Está presente na irmã que o acolheu ainda criança, nos pais que, mesmo com pouco, ofereceram valores sólidos, e na escola pública que abriu as primeiras portas. Está também na universidade que o formou e, posteriormente, o acolheu como professor e gestor.
Hoje, à frente da Unimontes, Wagner Santiago carrega mais do que a responsabilidade administrativa de uma instituição. Ele carrega uma história que dialoga diretamente com milhares de estudantes que, assim como ele um dia, enxergam na educação a possibilidade de mudar suas próprias realidades.
Sua gestão, marcada por iniciativas que vão da reestruturação do hospital universitário à ampliação de políticas de inclusão e valorização profissional, reflete justamente essa compreensão: a universidade não é apenas um espaço de formação técnica, mas um território de transformação humana.
Ao investir em concursos públicos após mais de uma década, ao defender processos seletivos baseados no mérito, ao criar mecanismos para qualificação de servidores e ao fortalecer políticas de inclusão — como o atendimento a estudantes com necessidades específicas e a implantação de espaços multissensoriais —, Wagner imprime à gestão um traço que dialoga diretamente com sua própria história: o compromisso com oportunidades reais.
E talvez seja essa a maior coerência de sua trajetória. O menino que cresceu entre limitações materiais hoje lidera uma instituição que amplia horizontes. O jovem que enfrentou dúvidas vocacionais hoje incentiva novos caminhos. O filho que foi chamado de “doutor” antes do tempo hoje ocupa não apenas o título, mas o significado profundo que ele carrega.
No fim das contas, a história de Wagner Santiago não é apenas sobre ascensão pessoal. É sobre permanência de valores. É sobre memória, pertencimento e responsabilidade.
E, sobretudo, é sobre aquilo que o pai já sabia — muito antes de qualquer diploma, antes de qualquer cargo, antes de qualquer reconhecimento institucional: que o verdadeiro “doutor” não se forma apenas na universidade, mas na vida.



