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ENTREVISTA | MARTA AURORA: Uma trajetória marcada por sensibilidade, educação e propósito - Rede Gazeta de Comunicação

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ENTREVISTA | MARTA AURORA: Uma trajetória marcada por sensibilidade, educação e propósito

Por Paula Pereira

Em uma conversa profunda e marcada por reflexões sobre vida, educação e espiritualidade, a pesquisadora Marta Aurora compartilha sua trajetória pessoal e profissional. Natural de Montes Claros, ela revisita a infância, fala sobre a carreira na educação, a formação dos filhos e a maneira como enxerga sua missão no mundo.

PAULA PEREIRA: Marta, gostaria que você começasse contando quem é você: seu nome completo, onde nasceu e como foi sua infância.

MARTA AURORA: Meu nome é Marta Aurora Mota, nasci aqui em Montes Claros, na região do bairro São Luís. Sou filha de Antônio Ferreira Mota e Sofia Ambrosina da Fonseca Mota. Minha infância foi muito rica, simples, mas cheia de criatividade. Brincávamos muito, tínhamos liberdade, inventávamos coisas. Era uma época diferente, e hoje, como pesquisadora da educação, percebo o quanto isso faz falta na formação das crianças atualmente.

PAULA PEREIRA: E como era sua relação com seus pais e irmãos?

MARTA AURORA: Nós éramos oito irmãos — três mulheres e cinco homens — e eu sou a do meio. Meu pai era um homem extremamente equilibrado, tranquilo, amoroso. Nunca conheci alguém tão sereno. Já minha mãe era mais enérgica, muito exigente com organização e estudo. Esse equilíbrio entre os dois fez toda a diferença na nossa formação. Meu pai contava histórias todas as noites, mesmo cansado, cantava, tocava violão. Isso marcou profundamente a nossa vida — e eu reproduzi isso com meus filhos.

PAULA PEREIRA: E quando criança, você imaginava quem se tornaria?

MARTA AURORA: Curiosamente, eu não fazia planos. Mas sempre fui muito observadora e sensível. Lembro de uma vez que vi uma senhora muito frágil sentada na praça e aquilo me tocou profundamente. Minha mãe dizia que eu “enxergava demais”. Hoje entendo que essa sensibilidade sempre esteve em mim. Eu percebia detalhes que outras crianças não percebiam.

PAULA PEREIRA: Como foi sua juventude e o início da vida adulta?

MARTA AURORA: Naquela época, não havia essa divisão tão clara de adolescência como hoje. A gente continuava brincando, convivendo em família. Conheci meu marido de forma curiosa: primeiro o vi em um ambiente acadêmico e pensei comigo mesma que gostaria de alguém como ele. Depois, no Carnaval, nos reencontramos e começamos a conversar. Mais tarde, percebemos que ele tinha muitas características do meu pai — o que hoje entendo como algo que meu inconsciente buscava.

PAULA PEREIRA: E sua trajetória profissional?

MARTA AURORA: Comecei muito jovem na educação. Dei aulas ainda nova e vivi experiências marcantes. Uma delas foi com um aluno que pedia para beber água o tempo todo. Descobri que ele passava fome em casa. Aquilo me impactou profundamente. Comecei a dividir minha merenda com ele e a questionar a qualidade da alimentação escolar. Isso me trouxe conflitos, perseguições, mas também fortaleceu meu propósito. Depois, segui carreira como pedagoga, fui diretora de escolas e posteriormente entrei na universidade, onde atuei por muitos anos.

PAULA PEREIRA: Você também seguiu na área acadêmica, certo?

MARTA AURORA: Sim. Fiz mestrado em Educação em Cuba, pesquisando assentamentos rurais, e depois doutorado no Brasil. Minha área sempre foi voltada para cognição e desenvolvimento infantil. Hoje, tenho pesquisas importantes nessa área e acredito profundamente que a base de tudo está na infância. É ali, de 0 a 5 anos, que se forma a capacidade de pensar.

PAULA PEREIRA: E sua vida pessoal, sua família?

MARTA AURORA: Tenho dois filhos, ambos muito dedicados aos estudos. Sempre priorizei a formação deles. Um seguiu para a área financeira e o outro é pesquisador. Eles tiveram oportunidades no exterior, estudaram fora, e isso é resultado de um investimento consciente na educação desde cedo.

PAULA PEREIRA: Sua trajetória também mostra um forte senso de missão. Como você enxerga isso?

Marta Aurora: Eu sempre fui muito incomodada com injustiças. Onde vejo algo errado, sinto necessidade de agir. Isso não é algo que escolhi racionalmente — faz parte de mim. Com o tempo, entendi que minha vida tem um propósito maior. Minha sensibilidade, minha percepção, tudo isso foi sendo construído ao longo da minha trajetória.

PAULA PEREIRA: Que mensagem você deixaria para as pessoas de Montes Claros e região?

MARTA AURORA: Se eu pudesse deixar um recado, seria: invistam nas crianças. A transformação da sociedade não acontece de forma imediata. Não adianta tentar corrigir tudo depois. É na infância que se forma a capacidade de pensar, de perceber o mundo, de agir com consciência. Muitas pessoas não agem por maldade, mas por falta de capacidade cognitiva que desenvolve a sensibilidade. Precisamos olhar para isso com seriedade. E, acima de tudo, aprender a enxergar — não apenas ver. Porque enxergar a essência das coisas faz toda a diferença.

Paula Pereira finaliza a entrevista destacando que a história de Marta Aurora é marcada por sensibilidade, coragem e compromisso com a educação — elementos que, segundo ela, ajudam a compreender não apenas uma trajetória individual, mas também os desafios e caminhos possíveis para a transformação social.